terça-feira, 24 de maio de 2011

Declaração de Atenas (traduzida)

Declaração da Conferência de Atenas sobre Dívida e Austeridade
Declaração de Ação e Solidariedade | Maio 2011

Nós, representantes de movimentos e ativistas de todo o mundo, reunimo-nos em Atenas para discutir as lições das anteriores crises económicas internacionais, para oferecer a nossa solidariedade ao povos europeus que lutam contra programas de austeridade impostos por governos da União Europeia, e para formular um plano de ação para uma economia que responda às necessidades do povo e não de uma pequena elite social.

Muitos países no mundo desenvolvido vivem em crises de dívida desde os anos 70. Após empréstimos irresponsáveis feitos pela finança internacional, alguns dos povos mais pobres do mundo depararam-se com cortes nos rendimentos e nas prestações sociais quando o Fundo Monetário Internacional impôs políticas severas como contrapartida pelas ajudas à finança e aos bancos.

Estas políticas foram injustas e não ajudaram à recuperação. Em vez disso, aumentaram a dependência dos países endividados face ao poder dos mercados financeiros, tornando os governos menos responsabilizáveis perante o seu próprio povo. Só quando um conjunto de países se levantou contra a imposição da austeridade, contra a ajuda à finança e contra o peso insustentável da dívida foi possível recuperar economicamente. Foi isto o que sucedeu na Argentina em 2001.

Hoje, os países periféricos da União Europeia enfrentam uma profunda crise da dívida. Foram empurrados para ela por um quadro institucional injusto da União Europeia e das suas políticas económicas neoliberais, assim como pelo sistema financeiro internacional, que se tornou extremamente poderoso, predatório e irresponsável.

No despertar da crise económica internacional, dívidas maciças foram contraídas pelos países periféricos, refletindo por um lado o fosso face ao centro da eurozona, e por outro aprofundando a desigualdade entre os mais ricos e o resto da sociedade. Os trabalhadores trabalhadoras são agora forçados a carregar o peso destas dívidas, mesmo sabendo que não beneficiaram com ela.

Medidas de austeridade e a privatização irão pressionar mais duramente os mais pobres, enquanto aqueles que criaram a crise serão ajudados. Os ricos e as grandes empresas continuarão a escapar a impostos que poderiam ser utilizados para construir uma sociedade mais justa. Se essas medidas não forem contestadas, terão um imenso impacto na Europa, alterando, por longos anos, o equilíbrio de poderes a favor do capital e contra o trabalho.

Aqueles que estão na primeira linha opor-se-ão à tentativa de transferir para os pobres e para quem trabalha os custos da crise, enquanto os muito ricos escapam. Em primeira instância, isto quer dizer que os povos da Grécia, da Irlanda e de Portugal desafiarão as políticas de austeridade da União Europeia e do FMI, opondo-se ao poder financeiro internacional e rejeitando a escravatura da dívida. Apelamos aos povos de todo o mundo para que manifestem a sua solidariedade para com os movimentos que nestes países lutam contra a dívida e contra as políticas nocivas que lhe sucedem.

Pedimos especificamente apoio para:

* A auditoria democrática das dívidas como um passo concreto na direção da justiça do endividamento. Auditorias da dívida que envolvam a sociedade civil e os movimentos de trabalhadores organizados permitirão definir que partes da dívida pública são ilegais, ilegítimas, odiosas ou simplesmente insustentáveis. São um instrumento que permite a quem trabalha verificar a validade da dívida pelo qual está a ser responsabilizado e exercer o controlo sobre o reembolso. Incentivam igualmente a responsabilidade democrática e a transparência na administração do setor público. Manifestamos solidariedade com a auditoria da dívida na Grécia e na Irlanda e estamos prontos para ajudar em termos práticos.

* Respostas soberanas e democráticas à crise da dívida. Os governos devem responder primeiramente ao seu povo, e não a instituições às quais não pode pedir responsabilidades, como a União Europeia ou o FMI. Os povos de países como a Grécia devem decidir que políticas aumentam as suas hipóteses de recuperação e de sustentabilidade. Há muitas de experiências de respostas soberanas efetivas e radicais ao problema da dívida.
Os Estados soberanos detêm o poder de impor uma moratória ao pagamento se a dívida estiver a destruir a subsistência dos trabalhadores e trabalhadoras. Mesmo as resoluções da ONU legitimam a cessação dos pagamentos em estado de emergência.

* Reestruturação económica e redistribuição, não endividamento. O domínio das políticas neoliberais e o poder da finança internacional levaram a um baixo crescimento, ao aumento das desigualdades, a grandes crises e à erosão dos processos democráticos.
É imperativo que as economias sejam colocadas em bases diferentes através de programas de transição, que incluem o controlo de capitais, o controlo sobre os bancos e a sua apropriação pública, uma política industrial que assente no investimento público e respeite o meio ambiente. O primeiro objetivo deverá ser proteger e ampliar o emprego. É igualmente vital que os países adotem políticas redistributivas de grande amplitude.
A base tributável deverá ser mais ampla e mais progressiva, através da tributação do capital e dos ricos, permitindo assim a mobilização dos recursos internos como alternativa à dívida. A redistribuição deverá igualmente incluir a restauração dos serviços públicos de saúde, educação, transporte e pensões, assim como reverter a pressão para diminuir salários e vencimentos.

Estes são os primeiros passos para a criação de uma economia que responda às necessidades e aspirações dos povos, alterando o equilíbrio de poderes em detrimento do grande capital e das instituições financeiras.
E permitirão que os povos de toda a Europa, e mais amplamente de todo o mundo, exerçam um melhor controlo sobre suas próprias vidas, e sobre o processo político. Oferecerão igualmente esperança à juventude de toda a Europa, que que se vê atualmente diante de um futuro sombrio, de emprego escasso, salários baixos e falta de perspetivas. Por estes motivos, a justiça face ao problema da dívida da Grécia, Irlanda e Portugal é do interesse dos trabalhadores de todo o mundo.

Atenas, 8 de Maio de 2011

Initiative for the Greek Audit Commission
European Network on Debt and Development
The Committee for the Abolition of Third World Debt (CADTM)
The Bretton Woods Project, UK
Research on Money and Finance, UK
Debt and Development Coalition Ireland
Afri - Action from Ireland
WEED - World Economy Environment Development, Germany
Jubilee Debt Campaign, UK
Observatorio de la Deuda en la Globalización, Spain

(Tradução de Rui Santos, a partir do inglês)

«Me gustas democracia, pero estás como ausente»

(Foto Pedro Moura)

José Vítor Malheiros, Público, 24 de Maio de 2011

Estes jovens não se sentem tratados com justiça pelo sistema económico nem representados pelo sistema político.

A frase que dá título a esta crónica, com um cheirinho a Neruda, está escrita num cartão encostado à estátua de D. Pedro IV, no Rossio, em Lisboa. É um dos muitos cartões com dizeres que se acumulam na acampada a que um grupo de jovens espanhóis deu início na semana passada em Lisboa e aos quais se juntaram, entretanto, dezenas de jovens portugueses. O grupo chega a algumas centenas nas “assembleias populares”, momentos de maior concentração. Mas este mesmo cartaz não está só em Lisboa. Ele está a aparecer em dezenas de cidades europeias.

Estes jovens do Rossio são uma extensão do grupo de espanhóis que tem estado nos últimos dias a ocupar a praça da Puerta del Sol em Madrid e outras cidades espanholas e que se tem alargado entretanto, via redes sociais, a outras cidades europeias (Amsterdão, Bruxelas, Paris, Dublin, Berlim…) . A Internet está cheia de vídeos, blogs e tweets destas concentrações, ocupações, acampamentos, organizados de forma espontânea ou convocados de forma descentralizada por jovens reunidos no Movimento 15-M (de 15 de Maio, data da primeira concentração espanhola) e unidos sob o slogan “Democracia real já!”.

Os jovens espanhóis disseram-se desde o início inspirados pelo movimento português Geração à Rasca, mas as manifestações do Norte de África também são referências no discurso dos oradores que se sucedem atrás dos megafones nas várias cidades europeias. O que querem estes jovens? O que gritam nos seus megafones? O que escrevem nos seus cartões? Democracia verdadeira, dizem. As palavras de ordem, que se repetem com variantes em todas as cidades, são humorísticas (“Yes we camp!”) e de desafio (“Toma la calle!”, “J’y suis! J’y reste! Je-ne-partirais-pas!”) mas são também claramente reivindicativas: “I don’t feel represented!”, “Não somos anti-sistema. O sistema é anti-nós”, “Esta crise não pagamos”, “Não somos mercadoria de políticos e banqueiros”, “A bancos salvais. A pobres roubais”. Há slogans a fazer lembrar Maio de 68 (“Os nossos sonhos não cabem nas vossas urnas”, “Se não nos deixam sonhar, não vos deixaremos dormir!”), outros mais claramente políticos (“Contra a ditadura capitalista”, “Contra a ditadura económico-financeira”, “Pelo poder popular”), outros anti-liberais (“Porqué manda el mercado, si yo no le he votado?”), muitos contra o FMI. Muitos contra a corrupção (os políticos chorizos…). E muitas referências à Revolução, que estará a começar. Há queixas que se aproximam perigosamente do discurso populista anti-partidos. O cuidado (excessivo) em não se aproximarem das propostas deste ou daquele partido torna por vezes as críticas difusas e as propostas vagas, mas uma coisa é evidente: estes jovens não se sentem representados pelos políticos (“No! No! No-nos-representan!”). Nem no seu país nem na Europa. Nem se sentem tratados com isenção pelo sistema eleitoral. Não se sentem tratados com justiça pelo sistema económico. Não se sentem defendidos pelo sistema judicial. Sentem que o sistema financeiro é desumano, injusto e fomenta a desigualdade e o crime. E, quando se ouvem melhor, as suas críticas aos partidos têm a ver com o facto de o sistema os forçar a escolher entre um PS e PSD (em Portugal) ou entre um PP e PSOE (Espanha) que, se podem ser distinguíveis, representam uma democracia armadilhada, que está como ausente, que coloca todas as escolhas fora da sua mão, do seu voto, da sua vontade, na mão do FMI, da União Europeia ou do mercado. Não foi por acaso que a multidão que enchia a Puerta del Sol recebeu o resultado das eleições regionais espanholas na mais absoluta indiferença. O que os move não é a adesão a este ou àquele partido. Nenhum os entusiasma nem lhes merece confiança. Não apelam ao voto nem à abstenção, mas sentem que não é nas eleições que vão conseguir mudar o que querem mudar. E, ganhe quem ganhar as eleições, estão dispostos a não nos deixar dormir. Ainda bem.

#acampadaporto PROGRAMA

TERÇA:

11H - Malabares

13h-14h30- Oficina de construção de malabares, com Teresa e Xabi

16h-19h Astrojax com Augusta

18h30-19h- Zu pergunta

19h30-20h30 Feminismo e intervenção artistica com GATA (Group for Activism and Transformation through Art)

20h30- A.I.T.S.P. Porto (Associação Internacional de Trabalhadores Secção Portuguesa) conversa sobre acção directa e assembleias populares

21h30- Assembleia



QUARTA

10h- Sessão de relaxamento com Ana Castro

11h- Malabares

18h - À procura do ponto g com Carmo

19h- Música na batalha

21h30- Assembleia



QUINTA

11h - Malabares

18h - Oficina sobre assédio sexual com GATA (Group for Activism and Transformation through Art)

21h30- Assembleia



SEXTA

11h- Oficina de Artesanato com Augusta

12h- Conversa sobre decrescimento com Maria João Rebola



18h- Marita Ferreira conversa sobre a correlação entre a crise económica e o activismo lgbt

21h30- Assembleia



SÁBADO

15h- Manifestação

18h- Piquenique

21h30- Assembleia



DOMINGO

11h-12h / 18h-19h - Helena conta contos (para crianças até os 10 anos)

20h - Noite de Flexibilização do Género

21h30- Assembleia



TODOS OS DIAS: ABRAÇOS GRÁTIS

#acampadaporto 4º dia

Ontem era o dia mais temido para alguns dos presentes na acampada. Não sabiamos se o povo iria desmobilizar com o regresso à rotina semanal. A verdade é que ontem acabou por ser o melhor dia da acampada. Mais pessoas durante a tarde que o habitual, muitas actividades a acontecer e muita vontade de continuar a ocupar a rua!

Temos neste momento um espaço de leitura (com jornais diários oferecidos) e de estudo, uma cozinha (ontem disseram em assembleia que iriamos ter um fogão), uma zona para jogos didáticos e finalmente um local de descanso protegido pelo sol.

Está disponível também pela praça folhas brancas estendidas na corda como se de roupa a secar se tratasse. Mesmo as pessoas mais apressadas que passam pela praça sentem necessidade de escrever algo. Este espaço é mais uma ferramenta para dar voz a quem quer se escutado.

Interessante também é reparar-mos que as pessoas “à volta” já não olham para nós como estranhos ou estrangeiros, mas sim como ocupantes da praça. Perceberam finalmente que estámos ali a fazer política, e tentam nos ajudar como podem, normalmente oferecendo comida.

A assembleia voltou a ser a crescer. Tivemos a companhia da RTP que fez questão de assistir à mesma na sua totalidade.

Foi decidido que a assembleia é um espaço de decisão. Para discussão e reflexão serão usados outros espaços de debate.

Após assembleia realizou-se vários debates com bastante adesão entre os quais sobre o movimento lgbt em portugal, formas de luta, etc.

De assinalar que esta acampada não se concentra num só tema, como o FMI por exemplo, debatendo outros tantos problemas que o sistema político actual apresenta.

A noite foi passada sem problemas, e a alvorada foi marcada pela boa disposição como de costume.

Hoje o dia está preenchido com actividades/workshops sendo que o primeiro começa ás 11h da manha. Apareçam! Tragam alegria, criatividade, protesto e amor, a praça nunca antes foi tão nossa.


Tiago Braga, ocupante da praça

Os "Robins dos Bosques" invadem o "castelo" do J.P. Morgan Chase


O J.P. Morgan Chase é um dos grandes bancos dos EUA, resgatados com dinheiro dos contribuintes depois de terem criado uma crise global. Por isso mesmo foi escolhido pelo Showdown in America, um movimento de afectados pela crise pela regulação do sistema financeiro, para uma acção de protesto ambiciosa.
Enquanto os executivos do J.P. Morgan se reuniam num edifício rodeado por um fosso, em Columbus, Ohio, centenas de pessoas juntaram-se para exigir que o banco assuma a sua responsabilidade pela crise que ajudou a causar. Entre os manifestantes estavam muitos dos afectados pela crise, pessoas que ficaram sem as suas casas e empregos depois de décadas a pagar impostos e prestações do crédito imobiliário. Um forte cordão policial impediu os manifestantes de se aproximarem do edifício, tendo inclusive cortado as estradas nas imediações, pelo que foi necessário usar a imaginação.
Um grupo vestido de Robin dos Bosques decidiu invadir o recinto, montando uma ponte flutuante para passar o fosso. A polícia reagiu usando cães e gás pimenta para os dispersar mas o "exército" aguentou a sua posição. Mais uma vitória para a democracia!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

#acampadaporto 3º dia

A acampada está viva e recomenda-se!

A assembleia:

Cada dia um recorde novo, mais uma vez, a maior assembleia de sempre na Praça da Batalha, quase 100 pessoas.
A assembleia de ontem foi marcada pela discussão do ponto 6 do manifesto, onde se li-a: “...as agências de notação financeira, como a Moody’s e a Standard and Poor’s, o PS, o PSD, o CDS; contudo, há muitos mais e a nossa obrigação é nomeá-los.” passou a ler-se “...as agências de notação financeira, como a Moody’s e a Standard and Poor’s, partidos politicos que pela sua acção ou inércia nos conduziram à situação política actual.” A decisão foi consensual: Podemos compreender que colocar o PCP ou o BE no mesmo saco que o PS e PSD seja injusto (para alguns presentes), no entanto somos um movimento apartidário como tal, nos recusamos a qualquer tipo de aproximação partidária.
Outro ponto das ordens de trabalho foi “o que estámos aqui a fazer, qual o nosso objectivo?” A duvida era se deveriamos ter propostas de mudança concretas ou não. Foi novamente decidido por concenso que este movimento é de protesto/indignação. Este movimento faz política com amor e criatividade na praça, hoje não queremos nem temos espaço para “projectos de lei”.
Foi pedido na assembleia que as pessoas tragam tendas de campanha, fogão de campismo, plásticos etc. Também aceitamos comida!

A noite:

Dormir na Praça é sempre divertido. Os problemas do costume, mas nada de grave. Hoje fomos cerca de 30 pessoas a pernoitar.

Programa já marcado para hoje:

Debate Direitos LGBT
Workshop Malabares
Distribuição de flyers
22H - Assembleia


De entristecer a fraca adesão dos movimentos portugueses. O que nos safa são os espanhois! Hasta luego hermanos!

15-M: Não Há Democracia Verdadeira sem Democracia Económica

Por Juan Torres López – Conselho Científico da ATTAC Espanha.

“Toda a riqueza do país nas suas formas distintas e seja qual for a sua titularidade está subordinada ao interesse comum.”
(Artigo 128.º da Constituição Espanhola)

O movimento 15M pôs sobre a mesa um debate que se tem furtado à cidadania espanhola durante os últimos trinta anos: o da democracia imperfeita existente no nosso país.

Milhares de pessoas gritam nas nossas ruas para exigir democracia verdadeira, porque entendem, com razão, que não se sentem representadas pelo regime bipartidário instituído de facto pela lei eleitoral vigente, com o objectivo principal de excluir a esquerda menos colaboracionista do cenário político. Porque entendem que a democracia é incompatível com a apresentação de dezenas de arguidos nas listas eleitorais, com a opacidade do financiamento dos partidos, com a falta de controlo do património de quem diz servir os interesses públicos, começando pelo Chefe de Estado, ou com as vergonhosas imagens de deputados ausentes dos seus lugares enquanto outros falam fastidiosamente para o ar. E ainda, porque acreditam, porque acreditamos, que também não se pode falar de democracia quando a propriedade dos meios de comunicação se concentra cada vez mais nas mãos de grandes grupos financeiros ou até de fundos especulativos, para evitar que se convertam em espaços de debate público e informação objectiva.

Milhares de pessoas reclamam, reclamamos, Democracia Verdadeira Já, porque cada vez sentimos mais indignação quando vemos que quem o presidente (primeiro-ministro) chama para tratar de fazer frente à crise, não são os cidadãos e cidadãs que perderam as suas casas, os desempregados, os pequenos e médios empresários que criam 90% do emprego existente, mas sim os banqueiros especuladores e os administradores que mais natureza e emprego destroem e que utilizam os paraísos fiscais para escapar às suas responsabilidades para com o Estado — e portanto para com todos nós que pagamos impostos. E saímos às ruas, porque estamos fartos de ser chamados a votar de tanto em tanto tempo, sem que os nossos votos sirvam para decidir as questões mais importantes que, no entanto, são resolvidas a seu bel-prazer pelos poderes de facto, que não se apresentam a eleições: os banqueiros, a hierarquia da Igreja Católica, os dirigentes patronais e os grandes proprietários ou os donos dos meios de comunicação mais influentes.

Exigimos democracia, porque acreditamos que não podemos dizer que esta exista em Espanha quando também não existe numa Europa que apenas dá preferência aos mercados, que renuncia a ser algo mais que um grande espaço de liberdade financeira ao serviço do capital e cujos dirigentes se deixam dominar pelos grupos de pressão e poder dedicados a impor aos povos as receitas neo-liberais.

Exigimos com razão Democracia Verdadeira Já, para conseguir que os direitos políticos e a capacidade de decisão de todos os cidadãos e cidadãs sejam exactamente os mesmos, sem distinção. Mas, precisamente por isso, não devemos esquecer-nos que será impossível que exista democracia verdadeira se não houver democracia económica, ou seja, se não se garantir a todos os indivíduos, também sem distinção, o rendimento, os meios e as oportunidades suficientes para viver e satisfazer com dignidade as suas necessidades.

As políticas económicas neo-liberais que se têm aplicado nos últimos trinta anos constituem de facto uma negação da democracia, porque geram condições de emprego e salários tão baixos, que condenam milhões de trabalhadores e trabalhadoras à precariedade constante, impedindo-os de viver dignamente. Porque permitem que os bancos multipliquem sem limite a criação de dívida que escraviza as famílias e as pequenas e médias empresas. Porque criaram instituições, como os bancos centrais independentes, que podem modificar ferramentas fundamentais da vida económica, de que dependem a distribuição da riqueza e o bem-estar das pessoas, sem qualquer controlo dos poderes representativos. Porque privatizaram capital e empresas públicas a preços de saldo e sem qualquer debate social sobre a sua conveniência ou vantagens; porque restringiram a despesa pública, privando milhões de pessoas de bens colectivos de qualidade para pôr cada vez mais serviços públicos nas mãos do negócio privado, contra o desejo da maioria da população, e porque cada vez mais as instituições públicas representativas estão desarmadas, cedendo poder aos mercados e a grupos de pressão para que os grandes empresários, os banqueiros, os oligarcas do século XXI imponham livremente a sua vontade ao resto da sociedade. E porque aumentaram escandalosamente a desigualdade, fortalecendo o poder das minorias mais ricas e condenando ao ostracismo cada vez mais milhões de pessoas.

E é fundamental ter em conta que, se esta falta de democracia económica impede que se possa falar também de democracia política, a ausência de ambas é a verdadeira causa que deu lugar à crise que vivemos, porque deixou as finanças especulativas e os banqueiros que cometeram todo o tipo de fraudes e enganos sem controlo. Como, noutra escala, também é a causa dos grandes problemas económicos no mundo actual, dos quais se destacam a destruição do nosso meio ambiente, a fome e a discriminação que as mulheres e outros grupos populacionais, como os imigrantes, continuam a sofrer.

É completamente impensável, no entanto, que possamos resolvê-los sem avançarmos decisiva e realmente para uma democracia económica. E é uma mentira gigantesca que se possa sair da crise, como dizem os nossos governantes, com reformas laborais e das pensões, com políticas de austeridade e com mais privatizações, que apenas agudizam os problemas que provocaram a crise e limitam ainda mais a capacidade de decisão da cidadania, ou seja, a democracia.

Em Espanha falta-nos democracia económica e, para a ter, é imprescindível um firme compromisso de Estado que garanta o alcance efectivo dos direitos constitucionais com um emprego decente, um salário de suficiência, saúde, educação, uma pensão digna e habitação. Se a democracia começa pelo cumprimento das leis, exijamos que se cumpra a primeira delas, a Constituição.

Não poderemos falar de verdadeira democracia em Espanha enquanto houver uma única pessoa sem salário ou com rendimentos miseráveis, ou sem poder habitar uma casa digna. Se queremos falar de democracia há que garantir os direitos económicos e sociais básicos de toda a população e sabemos que, se hoje em dia não estão garantidos no nosso país, isso deve-se às políticas económicas que se têm aplicado e que têm que mudar.

A história e a experiência dos países que lograram mais avanços nestes campos mostra-nos, sem margem para dúvidas, que o usufruto destes direitos não é garantido pelo mercado (restringindo a despesa pública e cedendo as escolas a fundos especulativos, como em Madrid), mas que é imprescindível uma forte intervenção pública.

E para poder levá-la a cabo é necessário, por um lado, uma Reforma Fiscal urgente que dê equidade ao nosso sistema fiscal e um plano de luta contra a economia clandestina e a evasão fiscal. E, por outro lado, uma potente estratégia de recuperação do rendimento e da actividade económica.

Para consegui-lo é preciso, em primeiro lugar, dispor de financiamento suficiente e, para isso, devem nacionalizar-se as caixas e os bancos que não ponham imediatamente os seus recursos ao serviço da actividade produtiva. Há que travar quanto antes a espoliação do sistema financeiro espanhol que a banca privada quer fazer. Em segundo lugar, devem ser devolvidas ao estado as empresas de interesse estratégico para a economia nacional, que foram privatizadas sem consultar a cidadania e sem debate sobre as vantagens ou inconvenientes. E em terceiro lugar, dever-se-á subscrever um amplo Pacto de rendimentos que garanta, por um lado, o incremento da participação dos salários no rendimento nacional, que é um objectivo imprescindível para garantir a saída da crise, através da recuperação da procura e da actividade; e, por outro lado, aumentos da produtividade e reformas substanciais no modelo produtivo, que permitam que a nossa economia não tenha que limitar-se à inserção passiva nos mercados globais, como até agora, para benefício exclusivo das grandes empresas. Para isso há que começar por revogar imediatamente as medidas de cortes nos direitos sociais e laborais adoptadas sob a pressão do terrorismo financeiro desde Maio de 2010 até à data.

Perante o problema da dívida que atinge a nossa economia, deve fazer-se uma auditoria à dívida pública e perguntar à população se deseja encarregar-se da que tenha sido contraída por irresponsabilidade dos bancos e das grandes empresas ou em consequência das suas operações especulativas contra o estado espanhol.

Espanha tem uma escolha: definhar num regime bipartidarista de democracia imperfeita que tira poder à cidadania para o dar aos mercados e que fomenta uma economia dependente, oligárquica e destruidora de emprego, de actividade e de riqueza ambiental e natural, ou, como começa a acontecer nas ruas, dizer não à estratégia económica neo-liberal que os poderes económicos e financeiros impuseram aos políticos que governaram a saída (inacabada) do franquismo.

Mulheres e homens comuns que somos, podemos mudar o rumo da história e podemos evitar que os poderosos imponham sempre os seus interesses aos demais. Agora podemos consegui-lo em Espanha e avançar assim para a Democracia Verdadeira com democracia económica, se forem cumpridas duas condições. Uma, que não se renuncie ao poder que nasce nas ruas face aos impostores que se empenham em que paguemos nós a crise que eles próprios provocaram. E outra, que a rebeldia se estenda, como começou timidamente a acontecer, ao conjunto da União Europeia, porque é aí, sob o domínio do poder neo-liberal mais fundamentalista, que se encontra hoje o elo mais determinante da cadeia que nos escraviza.

Botín [1] não é o dono da Espanha! Democracia Verdadeira JÁ!

(Tradução: Helena Romão)

[1] Botín é o dono do Santander.