sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Reescrever a história - parte 3294

Via Paul Krugman, chega-nos esta pérola de Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças alemão:

"It’s actually undisputed among economists worldwide that one of the main causes – if not the main cause – of the turbulence – not just now, but already in 2008 – was excessive public debt everywhere in the world".

Em português:

"Na verdade, há um consenso entre economistas de todo mundo de que uma das causas fundamentais - se não a causa fundamental - da turbulência - não apenas agora, mas já em 2008 - foi o excesso de dívida pública à escala mundial".

Vejamos, portanto:


Ou seja,
  1. a dívida privada não existe; 
  2. o Estado de bem-estar corporativo não existe; 
  3. a crise dos modelos de governo societário também não existe; 
  4. o Lehman Brothers não faliu e o Dick Fuld é o gajo mais honesto de sempre, a seguir ao Ken Lay; 
  5. a Fitch, a Moody's e a S&P não reclassificaram milhares de títulos prime como lixo em poucos dias; 
  6. as leituras estúpidas de Adam Smith e Friedrich von Hayek são muito espertinhas;
  7. a porta rolante entre a indústria financeira e a esfera política não gera corrupção e, mesmo que gerasse, bastava fechar os Estados e privatizá-los, porque a culpa é da coisa pública, por defeito e porque a teoria manda; 
  8. os mercados são eficientes e as fadas más do socialismo querem aprisionar os pobres dos banqueiros;
  9. o capital também é gente, e gente pobre, pelo que não vale taxá-lo; 
  10. o Américo Amorim é, definitivamente, um trabalhador assalariado. 

Em suma, ligar à realidade está fora de moda. O que interessa é balbuciar uma narrativa que atice o populismo e a deriva conservadora. Venham os votos e a realidade que vá bardamerda. De caminho, um cargo de administração não-executiva (ou, se a lata for muita, administração executiva no mesmo sector do qual se ocupou enquanto titular de cargo público).

Das duas uma: ou o Eurostat está errado, ou Wolfgang Schäuble, militante da CDU, gosta mais de Stalin do que prefere admitir. O governo alemão parece, de resto, estar a especializar-se na reescrita acelerada da história. Vejam as declarações do bobo da corte Westerwelle acerca da Líbia, assim que a corrida ao petróleo (re)começou.

É esta a narrativa com que lidamos. A história reescrita em três anos. Como li em qualquer lado, a transformação do New Deal em acelerador da Grande Depressão demorou 30 anos a emergir. Agora, estes líderes, conservadores e progressistas, à esquerda e à direita, insistem que a realidade é irrelevante, apesar de podermos usar o Google e dois minutos do nosso tempo para desmontar atoardas de baixo calibre. São estas as elites que compõem odes à austeridade. Revelam, paulatinamente, que a democracia não pode ser um imperativo; não, o imperativo é a águia bicéfala da competitividade e eficiência no mundo globalizado. Serão estes os coveiros das estruturas democráticas que demorámos séculos, com sangue, suor e lágrimas, a conquistar.

Em Portugal, o inefável Álvaro e a inenarrável dupla Vítor e Vítor também gostam desta narrativa. Um diz não saber o que é um neoliberal; os outros praticam taumaturgia, tal como lida nos tomos do taumaturgo-mor Milton Friedman. Não me admirarei se, daqui a uns anos, o taumaturgo Vítor, agora alquimista das Finanças, responder à pergunta "Como é que saímos desta depressão?" com "Puff, faz-se o Chocapic". Realidades...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Canalhada dos Resgates

Xavier Caño Tamayo | Attac Mallorca

Canalhada é aquilo que é próprio da canalha, e canalha significa miserável, mesquinho e cobiçoso. O título deste texto não é, portanto, exagerado, mas sim descritivo. Ou a União Europeia, o Banco Central e o FMI (com o protagonismo destacado da Alemanha) não se estão a comportar de uma maneira avara, ruim e mesquinha com os denominados «resgates» dos países europeus mais endividados?
Porque, na realidade, os resgates transferem a dívida do sector privado para os governos, ou seja, para os cidadãos. E tudo isto sob o manto da austeridade. O Nobel da Economia Joseph Stiglitz, que até admite que são necessárias algumas medidas de austeridade, considera que a histeria da União Europeia com a austeridade não é de modo nenhum o caminho a seguir. E os resgates só agravam o problema. Porque não se resgata nada, excepto os bancos. Como no caso da Grécia, para não ir mais longe, que já vai no seu segundo resgate e não vê a luz nem a brincar. E com muito sofrimento da maioria dos cidadãos.
À semelhança da Espanha, a Grécia cortou e corta agora (muito mais do que no caso espanhol) nos salários dos funcionários públicos e trabalhadores de empresas do Estado, extinguiu 150.000 postos de trabalho, aumentou o IVA; fechou escolhas, cortou no serviço nacional de saúde, suprimiu investimentos estatais e privatizou empresas públicas. O Governo grego prepara-se ainda para vender quase todo o património público, milhares de milhões de dólares de acções do Estado, aeroportos, autoestradas, outras empresas, bancos públicos, imóveis, licenças de jogo, entre outros. Tudo para arrecadar fundos e assim contentar os gananciosos credores internacionais.
Stiglitz considera que tanto os Estados Unidos como a Europa escolheram um caminho errado ao impor políticas de austeridade, já que assim não se consegue a recuperação económica, mas sim o contrário. Mais ainda, as autoridades europeias com a sua imposição de austeridade entregam a Europa à banca e condenam-na à escravidão da dívida durante tempos e tempos.
Para além disto, recorde-se que o Departamento de Assuntos Económicos e Sociais das Nações Unidas propôs num relatório recentemente elaborado que «os governos têm que reagir com prudência às pressões para que adoptem medidas de austeridade, se não querem arriscar-se a interromper a recuperação da economia.» Como ficou demonstrado, «as medidas de austeridade adoptadas pela Espanha e pela Grécia devido ao endividamento público não ameaçam só o emprego no sector público e as despesas sociais, mas também tornam a recuperação económica mais frágil e incerta.»
Como diabos querem que a economia se recupere, se lhe cortam a cabeça?
Embora a Grécia seja o caso mais dramático, o que foi dito atrás é válido para todos os países europeus em que foram impostos austeridade e cortes em todos os custos, como Espanha, Irlanda e Portugal. Espanha foi elogiada pelas suas medidas de austeridade pelo FMI, Banco Central Europeu e União Europeia (razão para os espanhóis ficarem bastante preocupados), mas isto não diminuiu o desemprego elevado (o mais elevado da União Europeia, quase 21%), nem aumentou a procura interna, nem se vislumbra que a economia arranque, embora, para se provar que se escolheu o caminho correcto, cada vez se façam mais malabarismos para se dar um tom positivo aos implacáveis e desastrosos dados económicos.
Quem ganha com a austeridade e os resgates? A banca.
Os governos que cortam dispõem de mais dinheiro para pagar a dívida pública (um bom negócio nas mãos da banca e de entidades semelhantes) e também para fornecê-lo aos bancos, se estes precisarem, pois devem muito dinheiro uns aos outros. Portanto, o dinheiro que conseguem com os cortes (que são violações dos direitos humanos) vão para as mãos da banca.
E esclareça-se já que o défice não se deve à crise, nem a uma má gestão fiscal, como se pretende. A crise foi provocada pela cobiça e irresponsabilidade desreguladas dos bancos, fundos de investimento e outras entidades financeiras semelhantes. E isso com a cumplicidade total dos bancos centrais, que só tomam medidas que beneficiam a banca. E assim continuam.
Quanto aos resgates, Joseph Stiglitz é contundente (como as centenas de economistas que não dependem de nenhum banco): «Não é resgate, mas protecção dos grandes bancos europeus.»
O assunto dos resgates foi resumido com transparência pelo economista Marc Antoni Moreno: «As medidas de austeridade implantadas à força limitam-se a destroçar a sociedade e os países que não podem cumprir com os pagamentos que lhes exigem. Foi tudo um fracasso.»
Mas a recuperação económica, nem vê-la. E, se não existe uma verdadeira recuperação económica, para quê aguentar todos estes sacrifícios? É altura da desobediência civil.

Tradução de Cláudia Diogo

domingo, 14 de agosto de 2011

Reaprender a ouvir



Em vez de ler as parvoíces de sempre dos analistas demiúrgicos da praxe (portugueses e britânicos, progressistas ou conservadores), prefiro ouvir. Em vez de avançar argumentos pífios ou pretensiosos, prefiro ouvir. Porque há quem teorize a democracia como masturbação intelectual e vomite saudações democráticas como quem deixa pegadas, embora já tenha decidido que o mundo não passa de um capítulo da sua sebenta, ao qual nem é necessário prestar grande atenção. E também há quem revele, nestes momentos - falando de Brixton ou Tottenham como da Cova da Moura ou do Vale da Amoreira - a extensão da sua inenarrável boçalidade. Exemplos da força viral do racismo e classismo que alimentam percepções elitistas do mundo - tanto do onanista como do boçal.

E nós... ouvimos?

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A demagogia no seu melhor: Alguém sabe o que é a tarifa social de eletricidade?


O governo anunciou hoje a subida do IVA na fatura da eletricidade e do gás de 6 para 23%:

O IVA no gás natural e na electricidade vai passar para 23% já no último trimestre de 2011, mas o Governo espera que as famílias mais carenciadas possam ser ajudadas com a tarifa social.

Então o que é essa famosa tarifa social que vai salvar as famílias carenciadas?

De acordo com a legislação em vigor, As tarifas e preços para a energia eléctrica e outros serviços regulados são aprovados e publicados pela ERSE, em Dezembro de cada ano, para vigorarem durante o ano seguinte.

Isto é, as tarifas não são da responsabilidade das comercializadoras de energia elétrica. É o estado, através da ERSE, que as determina. Mesmo a "tarifa social" (o entre aspas é de propósito).

A tarifa social é um desconto na taxa de potência pelos consumidores nos seguintes valores:
Fonte: EDP Serviço Universal

Isto é: Os valores vão de 2,28 a 9,48€ por ano.

A demagogia no seu melhor! Infelizmente as pessoas não estão devidamente informadas.

Também em Suite de Ideias

Devolvam-nos o Futuro, sff


Nuno Ramos de Almeida | i

«Não há futuro», cantavam os punks de Londres, três décadas atrás, nas ruas que agora ardem. Dezasseis mil polícias não controlam 16 milhões de pessoas. A ordem apenas se mantém quando a maioria da população permite que ela exista. Os governos e os políticos destruíram a possibilidade de haver paz. A política tornou-se um prato único de austeridade para quem trabalha e mais riqueza para os do costume. Os cortes sociais abruptos e cegos e o aumento do desemprego fizeram com que haja cada vez mais gente que não tenha nada a perder. Os governos liquidaram o futuro, mas esta revolta também não traz nenhuma esperança. Apenas violência, chamas e caos. Aqueles que saíram às ruas são uma caricatura da sociedade que os levou ao beco sem saída: o plasma que roubaram na grande superfície só lhes permite ver a versão local do «Preço Certo» em ecrã maior. É este o drama da nossa época. Precisamos de uma mudança revolucionária que ponha a vida das pessoas no centro da economia. De uma sociedade que se importe com os empregos e combata os lucros fáceis da especulação bolsista. Mas nesta Europa não vemos uma força que queira transformar o caos numa destruição criadora. No Reino Unido, a 5 de Novembro, as pessoas assinalam a captura de um homem que no meio da injustiça pretendeu destruir o parlamento. Esse ao menos tinha claro que o mal é uma questão política.