sábado, 1 de outubro de 2011

Este país é para deprimidos

"Portugal é o país da Europa com maior taxa de depressão e o segundo maior do mundo, mas estima-se que um terço das pessoas com perturbações mentais graves não esteja tratada."

O coordenador português da EAAD revela um dado arrasador, na mesma altura em que Paulo Macedo pretende transformar o SNS numa entidade digna do PSI20.

As portuguesas e os portugueses são as pessoas mais deprimidas da Europa. Só os Estados Unidos, esse exemplo de vitalidade e consumo de psicotrópicos, têm um resultado mais desesperante.

Do ponto de vista das percepções profissionais, Ricardo Gusmão parece, na opinião dos leigos como eu, ter muita razão. Mas isso não chega. Não basta uma perspectiva instrumental e individualista. Se queremos abordar o problema com vista à sua resolução, devemos encará-lo como problema de saúde pública - afinal, a UNL tem uma escola de saúde pública, não é?

Não basta uma resposta clínica; é necessária uma resposta sociológica, porque a depressão clínica é um fenómeno transversal e a sua patogénese não é facilmente reduzida a características individuais ou acidentes imprevisíveis. A epidemiologia desta condição é inconveniente para a narrativa dominante da responsabilidade individual - e é por isso que os tribunos portugueses não conseguem dar respostas convincentes a este enigma. O Álvaro e o Vítor ficam calados porque este é um desafio a que as suas estruturas cognitivas não podem responder.

A depressão é o efeito de uma disfunção sistémica, e não se trata da ineficiência do SNS ou do peso do Estado na economia. A disfunção sistémica prende-se com as desigualdades sociais e económicas. Sabemos como as desigualdades definem a sociedade portuguesa, determinam a estupidez das suas elites e a aparente imobilidade. Em sociedades muito desiguais, o estatuto social é um bem escasso ou, para usar outros termos, deixa de ser um bem genericamente público (não-rival e não-excludente) e aproxima-se da condição de bem privado. Ou seja, torna-se objecto de competição acentuada e a sua posse tem um efeito multiplicador - quanto mais estatuto social se possui, maior a probabilidade de adquirir um volume maior. Quanto menos se tem, maior a probabilidade de continuar a perdê-lo. É um jogo viciado e nós sabemo-lo. Enquanto estratégia adaptativa, a depressão é, de resto, evolucionariamente relevante: uma reacção anti-competitiva à escassez de estatuto numa dada rede de relações sociais e um mecanismo de estabilização cognitiva perante problemas de difícil resolução. Em suma, um ser humano deprimido está a reagir de forma razoável aos sinais de uma disfunção profunda no ambiente que o rodeia. Não é um problema de sinapses a menos ou ouvir demasiado o Medina Carreira. Embora seja sempre bom sinal se tiver vontade de dizer que o Henrique é um idiota.

Em sociedades hierarquizadas e atávicas, como a portuguesa, a aquisição de estatuto social é praticamente impossível. O aparato cultural pós-industrial, dominado pelo mito da responsabilidade individual e pela materialidade do sucesso, domina as relações sociais em Portugal: os vencedores e os perdedores, os pobres e os ricos, ter um smartphone e um BMW, o anti-intelectualismo militante. Muitos produtos culturais anglo-saxónicos, que funcionam como propaganda puritana e utilitarista, afogam as nuances e impedem a construção de narrativas diferentes; impedem-nos de perceber por que razão a depressão é mais que um efeito de condições genéticas ou de más escolhas. A depressão é coisa de fraca, doença de rico - diz a narrativa dominante. É a mesma narrativa que permite aos intelectuais orgânicos definir "sucesso" e "bem-estar", direccionando sociedades inteiras para a ideia de que ser bem sucedido é andar de Ferrari e ter vinte casas, e quem anda de transportes públicos e é obrigado a viver numa habitação sem condições só está deprimido porque deseja ou porque não gosta de trabalhar.

Por isso, não basta olhar para a depressão como um problema estritamente clínico. Mas, para chegar mais longe, é preciso questionar toda a estrutura. E isso implica aceitar o epíteto de desadequado, alienada, perturbado e desestruturada.

Recordo-me de um discurso, de 1972, feito por Jimmy Reid, sindicalista escocês a quem Ribeiro Ferreira quereria, decerto, partir a espinha. Inclui esta passagem:

"Society and its prevailing sense of values leads to another form of alienation. It alienates some from humanity. It partially de-humanises some people, makes them insensitive, ruthless in their handling of fellow human beings, self-centred and grasping. The irony is, they are often considered normal and well-adjusted. It is my sincere contention that anyone who can be totally adjusted to our society is in greater need of psychiatric analysis and treatment than anyone else."
Tradução minha: "A sociedade e a sua concepção prevalecente de valores encaminha-nos para outra forma de alienação. Aliena alguns da sua humanidade. Desumaniza parcialmente algumas pessoas, torna-as insensíveis, implacáveis nas suas relações com outros seres humanos, auto-centrados e insaciáveis. A ironia é que estes seres humanos são, muitas vezes, tidos como normais e bem ajustados. Tenho a sincera convicção de que qualquer indivíduo que se possa ajustar completamente à nossa sociedade tem uma necessidade muito maior de análise e tratamento psiquiátrico que qualquer outra pessoa."


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Um perfeito desastre

Paul Krugman | New York Times

Publicado a 11 de Setembro de 2011

Quinta-feira, Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu (BCE) – o equivalente europeu de Ben Bernake – perdeu a pose. Em resposta a uma questão sobre se o BCE se está a tornar num “mau banco”, graças à compra da dívida de nações em risco, o Sr. Trichet, levantando a voz, insistiu que a sua instituição se tinha comportado de forma “impecável, impecável!” como guardiã da estabilidade nos preços.

De facto, assim foi. E é por isso que o euro se encontra em risco de colapso.

A agitação financeira na Europa deixou de ser um problema apenas das economias pequenas e periféricas, como a Grécia. O que está a acontecer agora é uma investida de larga escala sobre as economias espanhola e italiana, muito maiores. Neste momento, os países em crise representam cerca de um terço do PIB da Zona Euro e, como tal, a moeda única encontra-se ameaçada.

Todas as indicações são de que os líderes europeus não estão dispostos sequer a reconhecer a natureza desta ameaça, quanto mais a lidar com ela.

Reclamei bastante sobre a “fiscalização” do discurso económico aqui na América, e sobre a forma como uma atenção prematura dada aos défices orçamentais desviou Washington do desastre das operações em curso. Mas não estamos sozinhos no que a isso diz respeito e, de facto, os europeus foram muito, muito piores.

Escutem os vários líderes europeus – especialmente, mas não apenas, os alemães – e pensarão que os problemas do continente se resumem a uma simples narrativa moralista de dívida e castigo: governos que pediram demasiado dinheiro emprestado que agora estão a pagar o preço, com a austeridade fiscal como a única solução.

Contudo, esta história poderá, eventualmente, aplicar-se à Grécia e a mais ninguém. A Espanha em particular tinha um excedente orçamental e uma dívida pequena antes da crise financeira de 2008; o seu registo fiscal era, poder-se-á dizer, impecável. E, apesar de ter sido fortemente atingida pelo colapso da sua bolha imobiliária, continua a ser um país relativamente pouco endividado e, torna-se difícil demonstrar que a condição fiscal do governo espanhol é pior do que a do governo Britânico, por exemplo.

Portanto, porque é que a Espanha – juntamente com Itália, que tem uma dívida superior mas défices mais pequenos – se encontra em dificuldades? A resposta é que este países estão a enfrentar algo muito parecido com uma corrida aos bancos, excepto que a corrida é aos seus governos em vez de, ou mais especificamente assim como, às suas instituições financeiras.

Eis como tudo funciona: Os investidores, por um qualquer motivo, receiam que um país entre em incumprimento. Isto faz com que deixem de querem comprar títulos desse país ou o façam apenas a taxas de juro muito elevadas. O facto de o país ter de cumprir o serviço da dívida a taxas de juro elevadas piora as suas perspectivas fiscais, tornando o incumprimento mais provável, fazendo com que a crise de confiança se torne uma profecia auto-realizável. E, à medida que isso acontece, torna-se igualmente uma crise do sector bancário, uma vez que os bancos do país normalmente investem fortemente em dívida pública.

Agora, um país com moeda própria, como o Reino Unido, pode curto-circuitar o processo: se necessário, o Banco de Inglaterra pode intervir e comprar a dívida pública com moeda emitida. Isto pode resultar em inflação (embora tal seja pouco provável quando a economia está em recessão), mas a inflação constitui uma ameaça muito inferior para os investidores que um default completo. Espanha e Itália, contudo, adoptaram o euro e já não têm moeda própria. Como tal, a ameaça de uma crise auto-realizável é bastante real – e as taxas de interesse das dívidas espanhola e italiana são mais do dobro dos juros da dívida britânica.

O que nos traz de volta ao impecável BCE.

O que o Sr. Trichet e os seus colegas deveriam estar a fazer neste momento seria comprar as dívidas grega e italiana – isto é, a fazer aquilo que estes países estariam a fazer por eles mesmos caso ainda tivessem moeda própria. De facto, o BCE começou a fazê-lo há apenas algumas semanas, dando temporariamente uma folga a esses países. Mas o BCE encontrou-se imediatamente debaixo de uma pressão imensa dos moralizadores, que detestam a ideia de aliviar os países, devido aos seus alegados pecados fiscais. A percepção de que os moralizadores irão bloquear quaisquer acções futuras de resgate gerou um renovado pânico dos mercados.

Para além deste problema, há ainda a obsessão do BCE em manter o seu registo “impecável” de estabilização dos preços: num período em que Europa necessita desesperadamente de uma forte recuperação, e uma inflação modesta iria ser uma benesse, o banco tem, em vez disso, vindo a promover um aperto monetário, tentando reduzir riscos de inflação que apenas existem na sua imaginação.

E agora está tudo a precipitar-se. Não estamos a falar de uma crise que se irá prolongar durante um ano ou dois; isto poderá desmoronar-se em matéria de dias. E, caso isso aconteça, o mundo inteiro irá sofrer.

Será que o BCE fará o que precisa de ser feito – emprestar livremente e baixar as taxas de juro? Ou continuarão os líderes europeus demasiado focados em punir os devedores para se salvarem a si próprios? O mundo inteiro está a observar.

sábado, 24 de setembro de 2011

A trivialização do desespero

Há uma página particularmente perturbadora no Público de quarta-feira passada. É a página do artigo assinado por Isabel Arriaga e Cunha, sobre as conversações entre a troika e o governo grego. Em causa está o acordo sobre medidas adicionais de austeridade (orçadas em 4 mil milhões de euros), necessárias à aprovação de uma tranche de 8 mil milhões de euros, aprovada em Maio de 2010.

Embora constitua mais uma evidência dos resultados contraproducentes da sangria austeritária, não é o artigo em si que perturba de forma particular. Nem é, sequer, o facto de vir acompanhado pela foto que o ladeia. Essa foto - pelo que é e representa - será sempre terrível, quando e onde quer que seja publicada. O que é particularmente perturbador - ou melhor, acrescidamente perturbador - é a legenda escolhida: «Protestos voltaram há vários dias às ruas de Atenas». Isto é, o texto escolhido para entitular a foto em que um homem se imola pelo fogo assume essa precisa imagem como ilustração «normal» (corrente, comum), do regresso dos protestos às ruas de Atenas.

Presumo, sem dificuldade, que o título escolhido não pretenda «normalizar» esta forma limite de protesto (ilustrando-a como se poderiam ilustrar outras formas, comuns, de protesto). Mas nem por isso a relação entre a fotografia e a legenda deixa de ser menos perturbadora. Ela mostra, porventura, uma das faces mais sinistras da vertigem austeritária: o ajustar progressivo do que é tolerável para níveis crescentemente indignos e imorais; a resignação que desce, um a um, os degraus do fosso dos retrocessos sociais que a austeridade cava consecutivamente.

(Sobre a destruição do tecido económico local e a deterioração das condições de vida em Atenas, resultante das ondas do choque austeritário, vale a pena ler este testemunho de um jurista de Viena, que há cerca de ano e meio vive num apartamento da capital grega).

(Publicado originalmente no Ladrões de Bicicletas)