terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Pieguices ou como Passos Coelho é uma besta

Pedro Passos Coelho quer que eu me queixe menos e seja menos piegas.

Dois epítetos que me convêm, aliás. Gosto pouco de saber que crianças desmaiam de fome em escolas públicas. Também não gosto de saber que, no interior do país, essas crianças são obrigadas a andar quilómetros a pé, debaixo de chuva e neve, para aprender a respeitar as instituições de uma República que não quer saber delas para nada.

Não tenho grande jeito para pieguices. Se tivesse, não diria o que penso do Primeiro-Ministro eleito: é uma besta. Eu posso proferir estes impropérios, porque não fui eleito. O sr. PM não pode. É titular de um cargo dotado de uma dignidade específica, no qual se plasmam representações colectivas. Mas tergiverso.

Dizia eu que o sr. PM é uma besta. E, tal como deseja que me queixe menos e seja menos piegas, eu desejo, aliás exijo, que Passos Coelho fale menos, para tirar menos vezes as dúvidas acerca de quão paupérrimo é o seu intelecto (talvez lhe faça falta ler Mark Twain, decerto; quando andei nos comboios da linha de Sintra, que decidiu escavacar, tive a oportunidade de ler), e que seja menos estúpido, para proceder, como membro dessa coisa inana chamada "classe política", da forma mais adequada à manutenção das instituições e à provisão dos bens públicos que, até ver, o Estado está mais apetrechado para aprovisionar.

É evidente que, sendo o PM exemplar magno do "estúpido" como definido por Carlo Cipolla, prefere afinar pelo mesmo diapasão que Assunção Esteves, segunda figura de Estado e moralista benemérita que define os deputados à AR enquanto seres platónicos, moralmente impolutos (faltou-lhe ouvir Mendes Bota, presidente da Comissão de Ética da mesma AR, dizer que não se pode exigir "demasiada" integridade aos deputados, ou não haveria nenhum), ou Cavaco Silva, que perora sobre a vida fácil dos portugueses. Ou sobre Vítor Bento, que fala do bolo social e de como nem toda a gente poderá beneficiar dele. Ou Henrique Medina Carreira, outra besta de carga. Esqueçamos a pena; tiremos os martelos do armário e dêmos-lhes com eles, porque a época da polidez acabou e a esquerda precisa de refazer a sua estatura moral. Queixinhas? Piegas? No único de seis países onde a "austeridade expansionista" afecta mais os que já não têm nada que aqueles que podem enfiar o dinheiro em offshores? Esta "classe política" sofre de um síndroma, aliás mal explicado pelo Barómetro da Democracia do ICS - UL, que é explicável pela falta de sensibilidade aos sinais. Sinais de revolta e colapso. Sinais de sons e de fúrias. Não é que lhes importe. Não importa. Preferem ir para Luanda "reencontrar" um passado podre e dar antibiótico ao regime angolano, esperando que ninguém se lembre de perguntar "então e a ética?" ou "então e o destino colectivo de Portugal?". E ninguém perguntou. Porque são estes verdugos, estas amibas vácuas, estes intelectuais orgânicos que lêem, a partir de missais apodrecidos, as soluções milagrosas que salvarão Portugal de ser como a Grécia. Chega. O tempo do respeitinho precisa de chegar ao termo.

Pieguices, pois. Sr. Primeiro-Ministro, deixe de ser uma besta, observe a realidade e respeite a república. Esta é a minha resposta. Porque já basta de desprezo e sobranceria. Como cidadão, não aceito lições de moral de gentalha do seu calibre. Até hoje, tive o bom senso de me calar. Agora não. Querem calar-nos? Pois vamos descobrir a podridão dos vossos negócios e nomeações, das vossas privatizações porcas e da vossa sobranceria. Os dados estão aí.

PS. Prós e Contras. Manuel Forjaz desconfia da coisa pública mas clama por uma liderança visionária. Diz que há história a mais mas não parece saber quem foi Schumpeter. Adora o empreendedorismo mas não sabe que o empreendedorismo é uma panaceia idiota usada nas sociedades mediterrânicas para justificar desequilíbrios históricos. O bronze e os gestos expansivos, aprendidos em feiras e conferências de negócios, escondem uma pobreza assustadora. Porque as empresas, as empresas e as empresas. E ficamos na mesma. Importar modelos absurdos e usar regras e esquadros, como se fosse a solução mágica. Forjaz e todos os empreendedorocratas não passam de Panoramixes solipsistas.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A crise dos media

Os operadores de Televisão deveriam procurar distinguir-se através da oferta de conteúdos informativos, colunistas incluídos, necessariamente diferentes. Acresce que a omnipresença de alguns comentadores numa pluralidade de meios acaba por afunilar o acesso à opinião, reduzindo a pluralidade e, no limite, a democracia no sentido pleno do conceito.

A solução, apesar de barata, não é a mais lógica, nem a mais plural, nem, sequer, a mais "editorial", do ponto de vista das "audiências". Caso extremo é o de um certo Fiscalista que vagueia, de manhã à noite, entre os 3 canais especializados de notícias, para dizer banalidades e condensar as notícias publicadas nos jornais e blogues do dia. Enfim...

Quanto ao tema

Na minha modesta opinião, os jornalistas, em geral, e os "meios" (todos), falharam gravemente na sua missão de transmitir ao País e aos Cidadãos uma visão crítica - inteligente, interpelante e adequada - acerca do que realmente se passa, e aconteceu nos últimos anos. Situação que subsiste e constitui a motivação principal do meu post. Os jornalistas e os meios cederam à tentação fácil de demonizar Sócrates, apresentando-o como causador exclusivo dos funestos acontecimentos que atingiram o nosso país. É verdade que Sócrates frequentemente se pôs a jeito. Mas os jornalistas tinham a responsabilidade de fazer melhor para esclarecer a opinião pública. Muito melhor! A deontologia a isso os obrigava!

Eis o que tem sido escamoteado e/ou ficou por dizer nos últimos tempos e inquina, actualmente, a leitura que muitos cidadãos - erradamente - fazem da situação:

1 - Portugal tem problemas "congénitos", transversais a toda a sociedade e, por isso, omnipresentes na vida social, económica e política desde... deixa ver... os Descobrimentos! O mais importante, pela sua "ubiquidade" em todos os layers da sociedade, é o "tráfico de influências", muito mais que a corrupção propriamente dita, que aparece em segundo lugar! São dois fenómenos distintos que, por conveniência colectiva, costumam ser considerados como se apenas de um se tratasse!

2 - Sócrates, que começou por tentar romper com esta realidade, abandonou esse caminho e cedeu aos diversos grupos de interesses e corporações, traduzido na remodelação do Ministro da Saúde; Tem culpas próprias, por isso, mas não mais que todos os seus antecessores e, de um modo geral, todos nós!

3 - Há muito é claro que a crise é sistémica e corresponde a um downgrade da Política e da qualidade dos Políticos na condução dos destinos dos países e sociedades contemporâneas;

4 - Há muito é claro que o sistema financeiro, sem regras nem valores que não sejam o lucro rápido e fácil, está entregue a arrivistas ambiciosos e ávidos de subir "em acelerado" alguns degraus na escala da fortuna a qualquer preço, sem considerações de solidariedade ou responsabilidade social;

5 - Que a UE, e as suas instituições, ébrias com os respectivos umbigos, deixaram de funcionar, abandonando os valores fundadores dos Pais da CEE, e a responsabilidade (co-responsabilidade) dos países nas decisões entregues a quem, por força das circunstâncias e por desejo inato, os aceitou de bom grado: a Alemanha e a sua Chanceler que, de resto, cresceu longe da maturação do projecto Europeu;

6 - A voracidade de alguns países levou à criação de uma moeda única (o Euro) para países com realidades económicas bem diferentes, sem dotar a Moeda, e os países signatários, dos meios adequados à introdução de medidas próprias de correcção em caso de necessidade;

7 - Não acredito que os criadores do Euro fossem estúpidos, ingénuos ou, apenas, maus economistas! Por isso, não creio que tudo o que se está actualmente a passar na zona Euro (em toda a zona euro) não faça parte de uma Agenda há muito planeada - até agora em banho-maria - visando demolir o Estado Social e proceder a uma macro revisão constitucional, à escala da Europa, realizada "en passant" com a justificação (falsa), digo sob a chantagem, da inevitabilidade das medidas;

8 - É fácil de compreender que nada disto tem o que quer que seja a ver com o Sócrates ou qualquer outro. Ele era apenas o homem no lugar errado à hora errada;

9 - Há, portanto, dois assuntos distintos: os problemas "inatos" da portugalidade e os problemas derivados da crise financeira: norte-americana, primeiro, europeia, a seguir, e, por fim, mundial;

10 - Constata-se que o Capitalismo enferma do mesmo problema "essencial" que o Comunismo: o facto de ambos os sistemas serem especificamente humanos e, como tal, partilhando das mesmas debilidades e insuficiências dos seus protagonistas - os Homens!

11 - Não existe, mas não existe mesmo, qualquer problema NOVO nas dívidas públicas! Existe sim um problema ANTIGO de desequilíbrio na Balança de Transacções e de dívida externa (Pública e, sobretudo, Privada) e, como tal, de liquidez e sustentabilidade no sistema financeiro e nos bancos;

12 - Existe, portanto, um problema de raiz ideológica e para o qual está a ser apresentada como inevitável uma solução de matriz técnica. Um embuste ideológico e histórico, portanto!

Sobre Cavaco e os seus discursos...

- Cavaco é definido mais por aspectos da sua personalidade, enquanto indivíduo, que pelo seu pensamento político (não tem nenhum que dure o tempo suficiente para fazer história);

- É o político, de todos os tempos, que mais se cita a si próprio de forma explícita: este facto comprova à saciedade que intui o seu déficit de ideias, de projecto, de proactividade!

- Para compreender, e definir, Cavaco, basta esquecer o Político e centrar-se no Indivíduo: vendo bem, todo o seu comportamento público ilustra um sujeito basicamente cobarde, mesquinho, arrivista e vingativo. Daí os discursos redondos, susceptíveis de múltiplas interpretações (e recuperáveis com um novo sentido mais tarde), daí a sua obsessão com a segurança, daí a circunstância de a única assertividade que se lhe conhece ser coeva do facto de visar adversários "no chão";

- O discurso em apreço, deve, de acordo com o Perfil acima, resultar da sua tomada de consciência do (temido) encontro com a história. Neste momento há demasiada gente de mérito a condenar o comportamento do Presidente (ou melhor, da sua omissão). Creio que Cavaco se deu conta que tem um rendez-vous com a História e entrou em pânico. Só isso explica o discurso de Florença e os comentários acerca do Orçamento.


- As boutades acerca da reforma advêm dos aspetos de caráter referidos supra.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fiem-se nas virgens e não cresçam


Até há bem pouco tempo, as orações iam todas, direitinhas, para a Nossa Senhora dos Mercados. Com uma austeridade rigorosa e abnegada - diziam-nos - eles comover-se-iam e recuperaríamos a sua confiança. Ainda recentemente, depois da assinatura do acordo de «consternação social», o ministro Álvaro renovava a sua fé nos poderes da penitência e o ministro Gaspar, em êxtase místico, garantia ter já encontrado o «Ponto V», de viragem. E até a pitonisa lusa do FMI, Estela Barbot, viu no dito acordo um sinal positivo aos mercados.

O problema, porém, é que não há meio de os mercados darem igual sinal de retorno. Desde o início da crise, como mostra o gráfico, a sua irritação não pára de aumentar. Nem mesmo depois (ou talvez também por isso) da promessa solene de Carlos Moedas, feita ainda antes das eleições: «com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o rating, não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses, ainda não se sabe quando haverá um novo Governo». Se tinha dito «taxas de juro», em vez de rating, Moedas acertava em cheio.

Perante a ingratidão dos mercados, as preces do governo começaram a virar-se para Nossa Senhora Merkel. Portando-nos bem, cumprindo tudo direitinho, com sacrifícios a horas e suplícios a triplicar, para lá do que foi pedido, o reforço da ajuda não falhará, está garantido. Só é pena é que também esta santa já tenha começado a dar sinais de pouca fé, em Davos. Perante a proposta de reforço atempado da contribuição para o fundo de resgate, a chanceler tratou de lançar um aviso à navegação: «não queremos uma situação em que prometemos e no final não podemos cumprir».

(Publicado originalmente no Ladrões de Bicicletas)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Empecilhos de Palmo e Meio


Diz o DN que as creches estão dispostas a abrir mais horas porque «admitem adaptar-se às necessidades dos pais que tenham de trabalhar aos sábados.» Deixemo-nos de tretas: se já há quem trabalhe aos sábados, domingos, à noite ou de madrugada, é porque já há pais e mães que têm de trabalhar aos sábados. Para quem, é certo, isto é uma boa notícia. Mas porque não aos domingos, all night long, nos feriados, 365 dias por ano, e incluindo, pelo menos, as escolas primárias?

Para começar, porque as creches, jardins infantis e escolas não são depósitos a abarrotar de empecilhos à produtividade — são a concretização efectiva do direito à educação e o espaço onde decorre grande parte da socialização das crianças. Pensá-los de acordo com a exigências do mercado laboral não é ser «realista», nem pensar nas necessidades dos pais — é transformá-los em «razão atendível» para que a educação seja uma mera gestão de danos e o elemento «família» desapareça do processo de socialização. Os putos não são a mão-de-obra barata do futuro, também têm direito a um presente — um presente em que não sejam geridos em vez de acompanhados, em que não se sintam parte de uma engrenagem em que tê-los é precisamente o que mais nos obriga a não poder estar com eles. Que raio de futuro é que se constrói assim, não sei — mas sei que nesta lógica de rebentar com os tempos passados fora da escola há muito mais do que pais e mães cansados a respirar de alívio.

Para começar, há mães e pais (e avós, tios, primas e restantes significant others) mais cansados e com menos tempo para os filhos — quem está com eles quando não nos deixam: professoras, educadores, auxiliares. Sejam os mesmos de hoje a trabalhar o dobro e a ganhar o mesmo, gente contratada com vínculos miseráveis, ou obrigada a trabalhar porque recebe subsídio de desemprego. Porque não é, certamente, de criação de emprego que estamos a falar quando se criam mecanismos para garantir que não há entraves a obrigar-nos a trabalhar mais.

Resta saber (e não é difícil prever) quem vai pagar esta benesse filantrópica — a mais horas de prestação de serviços costuma corresponder um aumento de preço, e a maioria dos miúdos não tem lugar nas creches públicas. Vamos trabalhar mais para poder pagar mais pelo que nos faz poder trabalhar mais. Quem é que se lixa? Nós. Os putos. Quem toma conta deles. Ou seja — os putos.

Sim, vivemos acima das nossas possibilidades — parimos, por exemplo. É tão bonito falar tanto nas criancinhas e esquecer que lhes estamos a ensinar que são, basicamente, um sacrifício.

(Foto de Paulete Matos)

Esvaziar o mundo moral para reinar

Recordo aquilo que me foi dito, há coisa de quatro anos, nos corredores de uma instituição benquista:

"Para mim, a democracia é um bem em si mesmo". Disse-mo alguém no decurso de uma conversa acerca de Chávez, negando o epíteto "democracia" à Venezuela neobolivariana. A pretexto do incumprimento de uma visão minimalista da democracia liberal. O rule of law. Eleições livres e competitivas. Liberdade de expressão e associação. Respeito pela propriedade privada e um voto por cidadã ou cidadão com a idade mínima estabelecida por lei. Sistemas de verificação e contrabalanço dos poderes constitucionalizados. A Venezuela não cumpria (não cumpre) todos estes requisitos.

Se cumprisse, seria uma democracia representativa liberal. Isto é, se não estou a distorcer os predicados do credo liberal; fazendo-o, não o faço propositadamente.

Se o soubesse fazer, na altura, poderia ter criticado esta visão pobre de uma democracia entendida como bem supremo; poderia ter discutido o papel da deliberação e da participação cidadã; a necessidade de garantir direitos substantivos que reduzam desigualdades (de classe, género e etnicidade) - grãos de areia no funcionamento das democracias reais que se tornam, rapidamente, rochas impenetráveis -, mas não nos paraísos pluralistas de quem considera que eleições nominalmente livres e competitivas darão sempre lugar a competição entre partidos suportados por reivindicações identificáveis/distinguíveis; a necessidade de potenciar o funcionamento de uma sociedade plenamente capaz de dar substância, carne, ao esqueleto minimalista. Poderia ter debatido o significado de uma democracia procedimental e ritualista "como bem em si mesmo", ou de uma República em que quase ninguém é capaz de articular um significado plausível para "bem público" ou "interesse público". Poderia ter mostrado que uma democracia representativa só pode cumprir as suas promessas se transcender a sua dimensão minimalista e se se concentrar no facto de que, tal como uma economia, um sistema político está imbricado na sociedade onde evolui. Em suma, teria feito uma critica maximalista à banalidade procedimental, que, no limite, equipara o conteúdo moral da esfera pública à letra da lei. Que é o cerne de tudo isto: a redução do idioma moral da sociedade portuguesa aos artigos das leis.

Pegando num belíssimo artigo de Alan Finlayson, a respeito do significado filosófico do UK Uncut, este não é um problema menor.
"Consider for a moment the real implications of the proposition that no act can justly be criticized unless it is against the law. The implication is that law is a full and total expression of moral values. Only totalitarians think that. Everybody else recognises that, while certainly informed by morality, the function of the law is to provide a framework within which civil society can function and can debate the rights and wrongs of actions."
Atentando em todas as justificações de Alexandre Soares dos Santos - e, especialmente, dos intelectuais orgânicos que povoam a chusma de panfletos saídos da caneta de um Orwell relativamente bem-disposto -, surge uma regularidade: nenhuma acção é imoral se se mantiver do lado "certo" da lei. Nada é passível de crítica, muito menos uma operação que obedece à racionalidade utilitária do mercado competitivo, se não viola quaisquer regras inscritas no granito. Ou seja, nada é imoral se não é ilegal. Este passo de dança é um prego no caixão de qualquer esfera pública; num exemplar tão diáfano e vetusto como o português, um mero sopro daria lugar a um toque a finados. A resposta, com argumentos de carácter técnico e indignado, não surtem o efeito apropriado: esta não é uma questão de legalidade, porque a legalidade deixou de ser um fulcro da política. Aquilo que está em causa é o estertor do discurso moral e das suas incertezas.

Vale a pena atentar nisto, acho eu. Se não podemos criticar uma acção como imoral porque ela é definida como legal, o conteúdo moral da sociedade portuguesa é, em última análise, emanado da Constituição da República. E a Constituição da República é, hoje por hoje, uma nota de rodapé do Memorando de Entendimento acordado com a chamada troika. Esta é a base argumentativa de quem desqualifica a crítica à Jerónimo Martins como "algaraviada" e "gritaria" sem justificação. Se não viola a lei, não é imoral. A sociedade civil acaba de implodir. O debate público, que torna a democracia o tal "bem em si mesmo", acaba de desvanecer-se, esmagado por um passe de prestidigitação. A produção da hegemonia torna-se mais ou menos redundante e eterniza-se.

A não ser que os movimentos sociais decidam converter-se em verdadeiras plataformas de debate acerca da democracia que queremos, dizer "não é esta", "queremos a verdadeira" ou "assembleia popular" não chega. Já não chega. Do que precisamos é de perceber o ponto inicial. Porque já há muitos revolucionários por aí. Aquilo de que precisamos, e se o quisermos, é de perceber, citando esse grande filósofo, que raio de democracia é esta e qual a que queremos. Se será representativa e minimalista, como aquela que nos obrigam a tragar, ou deliberativa e maximalista, como alguns sectores mobilizados pretendem, não sei. Sei é que não podemos perder mais tempo apenas concentradas e concentrados em austeridade, economia, finanças, dívida, capital, capital, capital. As democracias são feitas de gente e dúvidas. Gente que tem dúvidas acerca do que pode fazer para atingir um fim, o da felicidade colectiva, sem perverter princípios fundadores. Sem saber mais ou menos o que queremos, ou, por outra, sem sabermos que precisamos de discutir seriamente o que queremos, em vez de debitar fúria contra o capitalismo, contra os políticos corruptos e contra tudo o que respira. Mesmo que não se chegue a um programa esculpido em mármore, é preciso discuti-lo; deixar a lei como guarda da nossa vida moral é o toque a finados da utopia. Eu, como mero observador do momento histórico que vivemos, tento percebê-lo: ocupar tudo, mas ocupar tudo em prol de quê? Para mudar a lei eleitoral? Pendurar os políticos de cabeça para baixo? Acabar com os paraísos fiscais? Fazer a Revolução? Venha ela. O que eu quero é saber o que vamos fazer com o mundo depois disso. E não será a deixar que se confunda a lei com a moral.
"Men use up their lives in heart-breaking political struggles, or get themselves killed in civil wars, or tortured in the secret prisons of the Gestapo, not in order to establish some central-heated, air-conditioned, strip-lighted Paradise, but because they want a world in which human beings love one another instead of swindling and murdering one another. And they want that world as a first step. Where they go from there is not so certain, and the attempt to foresee it in detail merely confuses the issue."

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A UGT e os tiros ao lado

Do ponto de vista de um tipo com menos de 30 anos, que nunca se sentiu elegível para a sindicalização e que observa a implosão lenta do movimento sindical global com profunda preocupação (porque é mesmo importante, para não falar da experiência sindical portuguesa), as palavras de João Proença lembram isto: as relações sociais que estão a ser destruídas, as redes de solidariedade que demoraram décadas a estruturar-se e parecem desvanecer-se em poucos meses ou anos, não voltarão a surgir tão cedo. O exemplo da América Latina está ao dispor de todos. Curar estas feridas demorará décadas, décadas que não temos e que estão irremediavelmente perdidas. Ao assinar um acordo que não resolverá coisa alguma - só servirá para acalmar temporariamente a sanha persecutória das troikas externas e internas -, Proença e a UGT reconheceram que o golpe de Estado constitucional é uma imanência. O estado de excepção está aí e tem a cara do Álvaro. Talvez saiba a pastel de nata. Seria um paliativo.

E será que resulta? Pedro Santos Guerreiro diz que os empresários portugueses deixaram de ter desculpas: nem em sonhos molhados vislumbraram aquilo que lhes foi dado. 

Digo eu, que conheço alguma coisa das PME portuguesas (e será nesse ambiente organizacional que a putativa "revolução" (a máquina mediática já nem disfarça a sua podridão) ocorrerá): não, não resulta. Claro que os seus proponentes já o sabem: o objectivo do acordo não é aumentar produtividades ou eficiências. É desequilibrar uma balança que já não existe e continuar a combater um espantalho qualquer, inventado nas escolas de gestão e nos think-tanks como a SEDES ou a FFMS. Estou mais ou menos convicto de que estes ideólogos também não sabem que espantalho é; sabem apenas que é preciso diminuir o peso do "factor trabalho" e melhorar os "recursos humanos". Que estas expressões escondam as biografias de milhões de pessoas, com famílias, vidas para viver, filhos para criar, sonhos para realizar, é coisa que pouco importa. Como disse a vigária Vaz, o lucro é que é bom. O resto? Atraso civilizacional.

Desequilibrar as relações laborais a favor dos empregadores é uma panaceia: o poder já está nas suas mãos há muito tempo, a proliferação de contratos precários evidencia-o, a transferência ascendente de riqueza comprova-o (para não falar da transferência descendente de risco) e a imposição de um cunho brutalmente regressivo ao sistema fiscal é um dos seus mecanismos. Além disso, está por explicar como é que precarizar a situação dos trabalhadores, que já é suficientemente precária e incerta, poderá ajudar um sector exportador de baixa relevância para a economia portuguesa:


e, ainda por cima, com um perfil de especialização cujo valor acrescentado é muito baixo:




 Num mundo onde existe um país chamado China. E outro chamado Bangladesh. E outro chamado Vietname. É isto que se pretende? Criar maquiladoras na zona euro?

A não ser que se defenda a manutenção de um perfil exportador baseado em qualificações esparsas e baixo valor acrescentado, o que explica a insistência nas agências de apoio à emigração. Além de que, se um conjunto de abêberas quer perpetuar-se (e às suas ideias) no poder, nada melhor que dar o aval à emigração dos eleitores com menor probabilidade de engolir patranhas durante muito tempo. Não votas em nós? Põe-te a mexer.

E tudo isto, todo este sofrimento - que ele existirá, não será pouco e é bom que nos preparemos para documentá-lo na sua dimensão total, para que as gentes do Terreiro do Paço não possam escudar-se atrás dos vidros fumados e das altas cilindradas - para nada. As PME não são improdutivas por ser difícil despedir gente. As PME são improdutivas porque a cultura organizacional portuguesa é predominantemente patriarcal, sexista, racista, anti-intelectual, avessa ao risco e dominada pela porosidade das relações interpessoais. Dito de outra forma, há preconceitos estúpidos que dominam a gestão das PME, entidades organizacionais que têm muito a ganhar com a gestão participada pelos trabalhadores, com a adopção de uma política de diversidade que as torna mais resilientes e abertas à mudança (escuso-me de usar o vocabulário burro da "inovação", deixo-o para a AICEP e para a COSEC) e com a implementação de uma cultura de aprendizagem que torne a organização capaz de suportar choques adversos.



Nada disto pode existir quando uma parte relevante dos empresários com poder decisório nas PME despreza a necessidade de falar mais que uma língua e de uma expressão correcta na língua nativa, de perceber que as lógicas sexistas e racistas são péssimos modelo de gestão, de compreender contextos culturais num mundo globalizado e, também importante, de perceber isto: uma cultura de solidariedade organizacional centrada numa compreensão real da divisão do trabalho, entendendo as trabalhadoras e trabalhadores como seres humanos integrados em contextos sociais brutalmente adversos, tende a aumentar a resiliência de uma organização. E uma organização resiliente é mais produtiva e eficiente.

É evidente que nada disto passou pela cabeça dos idiotas que inventaram um acordo tripartido onde o Memorando de Entendimento com a Troika é mais citado que a Constituição da República. E é evidente que esses idiotas acusarão sempre a CGTP - que também não concordará com grande coisa do que escrevi aqui - de não querer ajudar, colaborar, fazer. Se estivesse na posição da CGTP, teria feito o mesmo. E começaria a contar os dias até à próxima greve, aos próximos piquetes e à próxima forma de luta. Já não vamos lá de outra forma. São alterações irreversíveis de consequências lentas e imprevisíveis. Deixámos que elas acontecessem. Talvez esteja na altura de reflectirmos sobre a melhor forma de mitigá-las e sabotá-las, antes de pensarmos em combatê-las. É que esta derrota não é como as outras. Leiam o texto do acordo, aquele que Passos Coelho considerou histórico, e perceberão porquê.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

35.000 contra a Precariedade


A Iniciativa Legislativa de Cidadãos por uma Lei Contra a Precariedade será entregue na Assembleia da República na próxima 5ª feira, dia 12 de Janeiro. A entrega das mais de 35 mil assinaturas vai ter lugar em audiência com a Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves.

Cumpre-se assim o primeiro grande objectivo desta iniciativa, depois de vários meses de mobilização em todo o país. Uma enorme adesão em nome de uma proposta concreta, que é parte integrante da indignação que tem exigido nas ruas mais democracia e alternativas, desde 12 de Março de 2011.

Esta iniciativa confronta o parlamento com uma solução concreta para enfrentar a precariedade nas suas dimensões mais frequentes: os falsos recibos verdes, a contratação a prazo para funções permanentes e o recurso abusivo ao trabalho temporário.

Esta é apenas a segunda vez em que uma lei proposta por cidadãos é discutida e votada no parlamento. Inicia-se agora a batalha cidadã pela aprovação de uma lei que efectivamente combate a precariedade. Dentro e fora do parlamento, lutaremos por esta proposta e pela sua ampla discussão na sociedade.

Mais informações aqui.