Pedro Passos Coelho quer que eu me queixe menos e seja menos piegas.
Dois epítetos que me convêm, aliás. Gosto pouco de saber que crianças desmaiam de fome em escolas públicas. Também não gosto de saber que, no interior do país, essas crianças são obrigadas a andar quilómetros a pé, debaixo de chuva e neve, para aprender a respeitar as instituições de uma República que não quer saber delas para nada.
Não tenho grande jeito para pieguices. Se tivesse, não diria o que penso do Primeiro-Ministro eleito: é uma besta. Eu posso proferir estes impropérios, porque não fui eleito. O sr. PM não pode. É titular de um cargo dotado de uma dignidade específica, no qual se plasmam representações colectivas. Mas tergiverso.
Dizia eu que o sr. PM é uma besta. E, tal como deseja que me queixe menos e seja menos piegas, eu desejo, aliás exijo, que Passos Coelho fale menos, para tirar menos vezes as dúvidas acerca de quão paupérrimo é o seu intelecto (talvez lhe faça falta ler Mark Twain, decerto; quando andei nos comboios da linha de Sintra, que decidiu escavacar, tive a oportunidade de ler), e que seja menos estúpido, para proceder, como membro dessa coisa inana chamada "classe política", da forma mais adequada à manutenção das instituições e à provisão dos bens públicos que, até ver, o Estado está mais apetrechado para aprovisionar.
É evidente que, sendo o PM exemplar magno do "estúpido" como definido por Carlo Cipolla, prefere afinar pelo mesmo diapasão que Assunção Esteves, segunda figura de Estado e moralista benemérita que define os deputados à AR enquanto seres platónicos, moralmente impolutos (faltou-lhe ouvir Mendes Bota, presidente da Comissão de Ética da mesma AR, dizer que não se pode exigir "demasiada" integridade aos deputados, ou não haveria nenhum), ou Cavaco Silva, que perora sobre a vida fácil dos portugueses. Ou sobre Vítor Bento, que fala do bolo social e de como nem toda a gente poderá beneficiar dele. Ou Henrique Medina Carreira, outra besta de carga. Esqueçamos a pena; tiremos os martelos do armário e dêmos-lhes com eles, porque a época da polidez acabou e a esquerda precisa de refazer a sua estatura moral. Queixinhas? Piegas? No único de seis países onde a "austeridade expansionista" afecta mais os que já não têm nada que aqueles que podem enfiar o dinheiro em offshores? Esta "classe política" sofre de um síndroma, aliás mal explicado pelo Barómetro da Democracia do ICS - UL, que é explicável pela falta de sensibilidade aos sinais. Sinais de revolta e colapso. Sinais de sons e de fúrias. Não é que lhes importe. Não importa. Preferem ir para Luanda "reencontrar" um passado podre e dar antibiótico ao regime angolano, esperando que ninguém se lembre de perguntar "então e a ética?" ou "então e o destino colectivo de Portugal?". E ninguém perguntou. Porque são estes verdugos, estas amibas vácuas, estes intelectuais orgânicos que lêem, a partir de missais apodrecidos, as soluções milagrosas que salvarão Portugal de ser como a Grécia. Chega. O tempo do respeitinho precisa de chegar ao termo.
Pieguices, pois. Sr. Primeiro-Ministro, deixe de ser uma besta, observe a realidade e respeite a república. Esta é a minha resposta. Porque já basta de desprezo e sobranceria. Como cidadão, não aceito lições de moral de gentalha do seu calibre. Até hoje, tive o bom senso de me calar. Agora não. Querem calar-nos? Pois vamos descobrir a podridão dos vossos negócios e nomeações, das vossas privatizações porcas e da vossa sobranceria. Os dados estão aí.
PS. Prós e Contras. Manuel Forjaz desconfia da coisa pública mas clama por uma liderança visionária. Diz que há história a mais mas não parece saber quem foi Schumpeter. Adora o empreendedorismo mas não sabe que o empreendedorismo é uma panaceia idiota usada nas sociedades mediterrânicas para justificar desequilíbrios históricos. O bronze e os gestos expansivos, aprendidos em feiras e conferências de negócios, escondem uma pobreza assustadora. Porque as empresas, as empresas e as empresas. E ficamos na mesma. Importar modelos absurdos e usar regras e esquadros, como se fosse a solução mágica. Forjaz e todos os empreendedorocratas não passam de Panoramixes solipsistas.

