terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Acordar!
«Sabem, ultimamente fico mesmo frustrado quando ligo as notícias, e oiço tudo o que os media tradicionais andam a dizer. É a conversa do costume sobre a Irlanda, sobre Portugal, sobre a Espanha e sobre a Grécia — e parece que não sabem dizer mais nada para além de "na Irlanda, em Espanha, na Grécia e em Portugal vive-se demasiado bem." As empresas que controlam estes meios de comunicação obtiveram lucros fabulosos à custa da bolha imobiliária e da crise que elas próprias criaram, e são estas pessoas, as que provocaram as tensões e a recessão económica, as primeiras a acusar-VOS por isso mesmo. E estou farto desta conversa que nunca mais acaba, sabendo perfeitamente que só temos direito a pensões, só temos direito a férias, só temos direito a uma jornada laboral de oito horas… graças ao tipo de ação que os nossos irmãos e irmãs na Grécia estão a levar a cabo neste momento! O povo está nas ruas, contra a classe dos ricos, que nos anda a roubar-nos há anos! Perante esta propaganada toda, só quero dizer-vos isto: temos de unir-nos aqui na Europa! Temos de unir-nos aqui na Europa! Para lá de todas as barreiras étnicas, de todas as diferenças religiosas, de todas as fronteiras raciais. Porque agora as linhas estão bem definidas: SOMOS NÓS CONTRA OS RICOS, MAIS NADA. CHEGOU A HORA DE ACORDAR!»
Zach de la Rocha, concerto dos Rage Against the Machine em Dublin, 8/6/2010.
Mais atual do que nunca.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Joaquim Castro Caldas, da “raça dos Descobridores”, dá andamento, avant la lettre, às diretivas do atual Governo e, à falta de meios próprios, pede a colaboração da Fundação Calouste Gulbenkian para emigrar… de forma permanente, para o Céu! Pedro Tamen, Administrador da instituição interpelada, responde! Vale a pena ler: o pedido e a resposta! Uma homenagem ao Joaquim!

domingo, 19 de fevereiro de 2012
A Grécia mostra-nos como protestar contra um sistema falhado

Não gosto de violência. Não acho que haja muito a ganhar em queimar bancos e partir montras. E no entanto, sinto um frémito de prazer quando vejo a reacção em Atenas, e noutras cidades gregas, à aceitação por parte do parlamento grego das medidas impostas pela União Europeia. Mais: se não tivesse havido uma explosão de raiva, eu teria ficado perdido num marasmo de depressão.
A alegria é a alegria de ver o tão maltratado mexilhão levantar-se e rugir. A alegria de ver aqueles cujas faces foram esbofeteadas um milhar de vezes, esbofetearem de volta. Como podemos nós pedir que as pessoas aceitem passivamente a ferocidade dos cortes do nível de vida que as medidas de austeridade encerram? Queremos que elas simplesmente aceitem que o enorme potencial criativo das novas gerações seja liminarmente eliminado, os seus talentos aprisionados numa vida de desemprego sem termo à vista? Tudo isto apenas para que os bancos possam ser ressarcidos, os ricos tornados mais ricos? Tudo isto, apenas para manter um sistema capitalista que há muito passou a sua data de validade e que agora oferece ao mundo nada mais que destruição. Para os gregos, aceitar passivamente estas medidas seria multiplicar depressão por depressão; a depressão de um sistema falhado pela depressão da perda de dignidade.
A violência da reacção na Grécia é um grito que ecoa por todo o mundo. Por quanto tempo vamos ficar parados a ver o mundo ser destroçado por estes bárbaros, os ricos, os bancos? Por quanto tempo vamos assistir impassíveis ao aumento das injustiças, ao desmantelamento dos serviços de saúde, à redução da educação para os níveis do disparate acrítico, à privatização das águas do mundo, à eliminação de comunidades e à destruição do planeta, tudo a bem dos lucros das grandes empresas mineiras?
O ataque, que é tão intenso na Grécia, está a acontecer em todo o mundo. Por todo o lado o dinheiro sujeita a vida humana e não humana à sua lógica, a lógica do lucro. Isto não é novo, mas a intensidade e alcance do ataque são novos, e nova é também a consciência generalizada de que esta dinâmica é uma dinâmica de morte, de que é provável que estejamos todos a caminhar para a aniquilação da vida humana na Terra. Quando os ilustríssimos comentadores explicam os detalhes das últimas negociações entre os governantes acerca do futuro da zona euro, esquecem-se de mencionar que o que está a ser negociado tão levianamente é o futuro da humanidade.
Nós somos todos gregos. Todos somos cobaias cuja individualidade é simplesmente arrasada pelo cilindro da história determinada pelo movimento dos mercados do dinheiro. Ou pelo menos é o que parece e o que eles desejariam. Milhares de italianos protestaram uma e outra vez contra Silvio Berlusconi mas foram os mercados do dinheiro que o derrubaram. O mesmo se passou na Grécia: manifestação após manifestação contra George Papandreou, mas no fim foram os mercados do dinheiro que o demitiram. Em ambos os casos, servos leais e comprovados do dinheiro foram nomeados para substituir os políticos derrubados, sem sequer um simulacro de consulta popular. Isto não é sequer a história a ser feita pelos ricos e poderosos, apesar de obviamente estes lucrarem com ela; é história feita por uma dinâmica que ninguém controla, uma dinâmica que, se nós deixarmos, destruirá o mundo.
As chamas de Atenas são chamas de raiva, e nós regozijamo-nos nelas. E no entanto, a raiva é perigosa. Se é personalizada ou dirigida a um determinado grupo de pessoas (os alemães, neste caso), pode tornar-se apenas destrutiva. Não é coincidência que na Grécia tenha sido o líder do partido de extrema-direita, Laos, o primeiro ministro a demitir-se após a última vaga de medidas de austeridade. A raiva pode tornar-se muito facilmente nacionalista ou fascista; uma raiva que em nada contribui para tornar o mundo melhor. É, por isso, importante ser claro e afirmar que a nossa raiva não é contra os alemães, nem sequer contra Angela Merkel ou David Cameron ou Nicolas Sarkozy. Estes políticos são apenas símbolos arrogantes e patéticos do objecto real da nossa raiva - o poder do dinheiro e a sujeição de toda a vida à lógica do lucro.
Amor e raiva, raiva e amor. O amor tem sido importante nas lutas que redefiniram o significado da política ao longo do último ano, um tema constante dos movimentos Occupy, um sentimento profundo no coração até de confrontos violentos em muitas partes do mundo. E no entanto, o amor anda de mãos dadas com a raiva, a raiva do "como se atrevem eles a despojar-nos da nossa vida, como se atrevem eles a tratar-nos como objectos". A raiva de um mundo diferente a forçar passagem através da obscenidade do mundo que nos rodeia. Talvez.
Esta obstinação na construção de um mundo diferente não é apenas uma questão de raiva, apesar da raiva ser uma das suas componentes. Isto implica necessariamente a construção paciente de uma forma diferente de fazer as coisas, a criação de formas diferentes de coesão social e de suporte mútuo. Por detrás do espectáculo dos bancos a arder na Grécia encontra-se um processo mais profundo, um movimento silencioso de pessoas que recusam pagar os bilhetes nos transportes, contas de electricidade, portagens de auto-estradas, dívidas bancárias; um movimento, nascido da necessidade e convicção, de pessoas a organizar as suas vidas de uma forma diferente, criando comunidades de suporte mútuo e redes de alimentos, ocupando edifícios e terras vazias, trabalhando hortas comunais, regressando ao campo, voltando as costas aos políticos (que agora têm medo de se mostrar nas ruas) e criando formas de democracia directa para tomar decisões colectivas. Ainda insuficientes talvez, ainda experimentais, mas cruciais.
Por detrás do espectáculo das chamas, é esta procura e criação de uma maneira diferente de viver que irá determinar o futuro da Grécia e do mundo.
Para este sábado acções em todo o mundo foram convocadas em solidariedade com a revolta na Grécia. Somos todos Gregos.
John Holloway, The Guardian, 17 Fev 2012.
Tradução de Sandra Paiva, revisão de Paulo Coimbra.
Publicado no Esquerda.NET
Artigo original aqui.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
5 coisas que precisas de saber sobre o défice
1. Défice não é o mesmo que despesa pública
O défice é a diferença entre a despesa pública (quantia gasta pelo Governo) e a receita fiscal (a quantia proveniente de impostos). Assim sendo, a despesa pública não é a única coisa que interessa: se a receita fiscal diminui, o défice aumenta. Esta é uma das razões porque a evasão fiscal é tão prejudicial para a economia.
2. O défice aumentou por causa da crise financeira e da recessão que se lhe seguiu
Desde 1995 até 2007, o défice público médio de Portugal foi de 3,6% do PIB; de 2008 a 2010, em plena crise financeira, este valor subiu para 7,9% do PIB. A crise financeira e a recessão fizeram com que a receita fiscal diminuísse (as empresas tiveram lucros menores e por isso pagaram menos impostos) e com que a despesa pública subisse (o desemprego aumentou e por isso aumentaram as prestações sociais).
3. Cortar nas despesas públicas leva a uma diminuição da receita fiscal
Cortar nas despesas públicas lança para o desemprego os trabalhadores do sector público. Isto significa que deixarão de pagar impostos ou de consumir no comércio e negócios locais, o que leva a um agravamento da recessão. Portanto, cortar no sector público tem um efeito reflexo no sector privado – e o resultado é que o Governo recolhe menos dos impostos que poderiam ajudar a diminuir o défice.
4. Cortes na despesa podem levar ao aumento da despesa pública
Sim, percebeste bem. Os Governos pode optar por fazer cortes em instituições de apoio a crianças ou idosos, por exemplo. Mas ao colocar as pessoas na dependência de subsídios que façam face a estas carências, estes cortes aumentam a despesa alocada a subsídios de desemprego, etc. Esta despesa é determinada em larga medida pelo estado da economia e não por objectivos orçamentais. Em vez de pagar às pessoas para produzirem serviços públicos úteis, o Governo acaba por gastar mais em prestações sociais.
5. O crescimento da economia pode diminuir o défice
Em última análise, precisamos de crescimento económico para fazer diminuir o défice. Não de um crescimento autofágico, predador e autodestrutivo mas de um crescimento verde, sustentável e respeitador dos limites do planeta e da dignidade do trabalho, das pessoas. De outro modo ficamos presos a um sistema económico sem futuro e a um ciclo vicioso, com mais cortes a conduzir a menos receita fiscal, e ao empobrecimento das populações, e maiores despesas em prestações sociais – o que, por sua vez, leva a mais cortes. Neste momento, a procura na economia é incipiente e os investidores não estão com vontade de investir; a única forma de romper este ciclo é ter o Governo a preencher este espaço, investindo em vez de cortar.
Tradução adaptada de Sandra Paiva.
Dados relativos ao défice público de Portugal entre 1995 e 2010 retirados do portal Pordata.
Documento original - 5 things you need to know about the deficit, False Economy.
As instituições que não são democraticamente escrutináveis tendem a ser capturadas por interesses particulares
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O comportamento do BCE não deve surpreender: como temos visto noutros lados, as instituições que não são democraticamente escrutináveis tendem a ser capturadas por interesses particulares. Isto foi verdade antes de 2008; infelizmente para a Europa – e para a economia global – o problema não foi adequadamente tratado desde então.”
*Tradução de excerto do texto Capturing the ECB de Joseph E. Stiglitz. Publicado também aqui.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
O Barómetro da dívida pública do Instituto Kiel

