terça-feira, 20 de março de 2012

Porque razão os neoliberais preferem o Desemprego à Inflação?

Este texto é, de certa forma, um apêndice ao post dedicado ao lançamento da candidatura do Passos Coelho ao Nobel da Economia e, a latere, explica de certo modo porque razão preferem manter a generalidade dos cidadãos longe da escola e do conhecimento. É que na Sociedade do Conhecimento as suas débeis teorias, anátemas e proclamações seriam apenas, com toda a certeza, motivo da chacota geral!

O dilema gerado pelo “multiplicador”, o seu efeito colateral, digamos, é a subida generalizada dos preços resultante do aumento da Procura. Esta questão torna óbvia a resposta à pergunta supra. Confrontados com a opção POLÍTICA entre aceitar o efeito inflacionário na Economia, que conduz inexoravelmente à desvalorização da Moeda, em particular, e de todos os ativos, em geral, isto é, ao empobrecimento dos ricos, e/ou procurar alhures outra vítima para suportar os custos económicos e financeiros do “multiplicador”, os neoliberais escolhem esta última opção.

Com efeito, só é possível contrariar o efeito inflacionista da “injeção” de capital na economia usando uma de duas ferramentas:

  • a primeira é através da diminuição dos custos de produção das empresas e da atividade económica através da redução dos chamados “custos de contexto” – como os da energia, retribuição do capital, etc., por exemplo – que afetam seriamente os interesses das grandes corporações e dos mais ricos;
  • a segunda é através do aumento do desemprego. Este conduz à desvalorização do trabalho – à depreciação do fator de produção mão-de-obra. O desemprego é essencial para contrariar o efeito inflacionário (que desvaloriza o dinheiro, relembro) inerente aos períodos expansionistas.

Fica agora claro porque razão os neoliberais, quando confrontados com o dilema “Inflação ou Desemprego?” não hesitam em optar por este último.

Afinal, do ponto de vista deles, a verdadeira pergunta é: quem é que vai ter de empobrecer para o sistema funcionar? Os mais ricos ou os mais pobres?

E a resposta é óbvia: se é indispensável empobrecer alguém que sejam os mais pobres que já estão habituados!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Atrás do dinheiro e das balas

Lida esta notícia do Público espanhol, lembrei-me de ir ver o que diz a Arms Transfers Database, produzida pelo excelente SIPRI, a respeito das exportações de armamento da República Federal da Alemanha para os desvirtuosos da periferia. Os totais dizem respeito às exportações globais e colocam as transferências para os cinco desgraçados em perspectiva. Os valores estão expressos em milhões de dólares à taxa de câmbio de 1990 e representam valores indicadores de tendências do próprio SIPRI.


Coisas a olhar com alguma atenção:
  • a posição global da Grécia;
  • evolução das exportações alemãs a partir de 2005; 
  • dados voláteis para Portugal (não existem entre 1994 e 2010 (ou seja, antes da compra de submarinos à GSC - Ferrostaal));
  • ciclo 2007-2010.
  • valor global das exportações militares alemãs
É por isto que, quando ouvirmos Wolfgang Schäuble perorar sobre a austeridade e Angela Merkel a exigir aquilo que Philip Rösler lhe tiver soprado ao ouvido, mais vale esquecermos as analogias nazis e todas essas idiotices germanófobas. Mais vale usarmos as nossas energias para seguir o dinheiro e as balas. Se quisermos descobrir podridão, basta descobrir os dólares com cheiro a pólvora. Nos últimos 20 anos, a Alemanha reunificada foi o terceiro maior exportador mundial de armamento, de acordo com os registos do SIPRI:


Como diria o outro: é a maquinaria pesada, estúpido. E o mercado, essa divindade a quem as balas não furam a carne.

quinta-feira, 15 de março de 2012

A saída mais fácil

“Ou isso ou fechamos” é a frase mais ouvida pelo país, em todos os sectores, em todas as regiões, para justificar os despedimentos, a perda de direitos dos trabalhadores e os cortes nos salários.

Cortar nos salários era dantes o último recurso, por diversos motivos:

  1. É injusto, os trabalhadores nunca são colectivamente responsáveis pelos maus resultados. Mesmo que haja uns mais competentes que outros, isso traduz-se em diversos passos, podendo mesmo levar ao despedimento de um ou outro trabalhador que nunca cumpra as suas funções, mas não é nunca imputável ao conjunto dos trabalhadores.
  2. É inconstitucional, o que dantes era problemático.
  3. Era socialmente inaceitável, pelas razões anteriores. A empresa e a direcção que o fizessem estariam sujeitas a um escrutínio público muito pouco favorável junto dos trabalhadores — que, trabalhando numa empresa que não os respeitava, procurariam outro emprego assim que possível —, junto dos potenciais trabalhadores, na comunidade local e junto dos consumidores.

Assim sendo, os gestores eram obrigados a gerir realmente, a fazer e refazer contas, a usar todos os conhecimentos e estratégias de gestão para encontrar meios legais e socialmente aceitáveis para fazer face aos problemas financeiros.

Depois de se tornar prática comum, quotidianamente presente nos serviços noticiários e nas conversas de amigos, familiares e vizinhos, é fácil a qualquer empregador alegar que “está toda a gente a fazer o mesmo”, “o país está assim”, “não somos nós, é igual em todo o lado”, “ou isso ou fechamos”. Os de maior desfaçatez ainda aviltam: “Preferem continuar a ganhar, ainda que menos ou que a empresa feche e deixem de ganhar de todo?”

Fácil. A dificuldade anterior era a da aceitação e do discurso, mas uma vez disseminada, a prática deixa de ser socialmente reprovável e o discurso perde dificuldade. Mais fácil que procurar soluções alternativas, mais fácil que auditar realmente até encontrar os verdadeiros responsáveis pelo problema, mais fácil que exigir responsabilidades a quem as tem. Cortar salários e/ou direitos e despedir gente são as soluções óbvias, que poupam nas contas e no conhecimento da gestão. Não é preciso ser gestor nem sequer minimamente inteligente para cortar salários ou despedir. Para evitar fazê-lo é que é.

Além disso, fica a dúvida sempre presente: será que há dificuldades reais na empresa ou apenas um aproveitamento para cavalgar a onda da facilidade e diminuir as despesas? Tantos são os casos de empresas com lucros multi-milionários que usam esta desculpa para despedir trabalhadores ou cortar salários, que essa dúvida fica sempre presente quando não há engenho para fazer melhor nem boa-vontade para não punir os trabalhadores.

(publicado em Luz de Lisboa)

Olha se a moda pega?!


Os deputados da maioria camarária do Porto abstiveram-se violentamente contra Rui Rio. A Es.Col.A ganhou! Não há despejo e a vida do novo centro social e cultural do Porto continua a florescer. Parabéns a todos os activistas que conceberam o projecto e à população da Fontinha que lhe deu razão de ser.
Resistir é vencer!



Nota: o despejo foi suspenso, mas a Câmara Municipal poderá a qualquer instante voltar atrás. É importante manter a atenção neste projecto e no desenvolvimento do processo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A ética das classes

Não vai ser citado ou discutido em Portugal. Ou na Europa. Onde a economia moral dominada pela visão do empreendedor-cruzado e da aura libertadora da ganância parece estar a morrer, mas ainda não surgiu algo que a substitua. Este estudo, na sequência de novas tendências na economia e psicologia comportamentais, mostra porque devemos abater a instituição do respeitinho e por que razão as desigualdades socioeconómicas destroem as estruturas sociais e solidárias em que baseamos o nosso quotidiano. Entre outras razões e reflexões. Para ler com um grão de sal (e saltar a análise estatística, caso desagrade), mas para ir pensando nos moralismos de pacotilha debitados pela classe capitalista portuguesa.
É aproveitar e ler, antes que a National Academy of Science me obrigue a tirá-lo de circulação.

Citações especialmente para Alexandre Soares dos Santos e Isabel Vaz: 

"These findings suggest that upper-class individuals are particularly likely to value their own welfare over the welfare of others and, thus, may hold more positive attitudes toward greed." 
 "The availability of resources to deal with the downstream costs of unethical behavior may increase the likelihood of such acts among the upper class."  

 "Is society’s nobility in fact its most noble actors? Relative to lower-class individuals, individuals from upper-class backgrounds behaved more unethically in both naturalistic and laboratory settings."

Na íntegra:
PNAS-2012-Piff-1118373109

domingo, 4 de março de 2012

Declaração de Solidariedade com a Es.Col.A

No passado dia 10 de Abril a antiga Escola Primária da Fontinha no centro do Porto foi pacificamente ocupada por um grupo de activistas, que a recuperou, limpou, arranjou e lhe deu nova vida. No centro de um bairro degradado do Porto, a antiga escola estava há muitos anos fechada, abandonada e devoluta. Servia como centro de tráfico e consumo de droga, tornando-se num ponto perigoso daquele bairro. A informação detalhada sobre esta ocupação pode ser encontrada no site da Es.Col.A e num resumo aqui deixado pela Gui Catro Felga.

Com a ocupação ganhou nova vida, tornou-se num espaço cultural, onde as crianças do bairro da Fontinha podem brincar e desenvolver actividades de tempos livres em segurança. Tem uma programação variada e é um ponto de encontro e apoio social de toda a população da Fontinha.

Após a ocupação a Câmara Municipal do Porto mandou evacuar e enviou a polícia municipal numa brutal acção de despejo. Aproveitando o verão, as actividades continuaram na rua.

Meses depois a Assembleia Municipal deliberou a devolução do espaço ao grupo de activistas, desde que se constituíssem como associação, o que foi cumprido. Nasceu assim o Es.Col.A — Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha. Desde então a escola voltou a ser limpa, as obras de recuperação continuaram e a programação tem sido melhorada e recheada à medida que o tempo passa.

Agora a Câmara Municipal do Porto, ao contrário da decisão anterior, deu nova ordem de evacuação com data limite de 31 de Março, dia em que a polícia voltará a entrar na Es.Col.A.

Trata-se de uma iniciativa que dá aos moradores deste bairro carenciado serviços sociais que não eram antes providenciados pelo Estado, de forma social e economicamente sustentável.

Desta forma, o Portugal Uncut apoia este projecto e solidariza-se com o Es.Col.A — Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha. Apelamos a todos que assinem a petição online dirigida à Câmara Municipal do Porto para que deixe este projecto continuar o seu meritório trabalho.

(Cartaz de Gui Castro Felga)