segunda-feira, 7 de maio de 2012

Basta de vitórias pírricas

A CDU foi derrotada, para efeitos práticos, no Estado de Schleswig-Holstein. Hollande venceu a segunda volta das presidenciais francesas. A SYRIZA ultrapassou o PASOK e tornou-se a segunda força política grega.

Boas notícias. Notícias que me animam e, julgo, animarão quem se bate por novos horizontes. Mas será prudente enfatizar isto: a resistência, a resistência séria, começa realmente agora. Antes que se cantem vitórias e nos regozijemos por um qualquer renascimento esquerdista, os tempos aconselham prudência e uma crítica mais agressiva.

Basta ler esta peça da Reuters para percebê-lo. "Gregos furiosos rejeitam o resgate (sic) e arriscam saída do euro". Uma declaração política sucinta e demonstrativa da guerra de fricção que será movida, com ou sem quartel, a este renascimento ainda frágil. De acordo com a narrativa nascente, esses gregos furiosos (e irracionais, portanto) não acorreram às urnas para definir o rumo da República Helénica nos próximos meses ou anos. Não. Esses loucos furiosos acorreram a um plebiscito à "ajuda" da tríade FMI-CE-BCE, mostraram não ter maturidade para compreender a gravidade de uma recusa do pensamento único corporizado pela Nova Democracia do espantoso Samaras e pelo risível PASOK; a moeda única foi depauperada por cada voto na SYRIZA, no KKE (que continuará a ser o opóbrio de sempre) e em todos esses perigosos esquerdistas - o Tratado Fiscal, que ilegaliza o Estado keynesiano, pressentirão os verdugos da Europa austeritária, ainda não palmilhou o caminho da imanência austeritária; ainda podemos resistir-lhe. 

Esta será a narrativa. Vejam o que escreverá o Expresso. Vejam o que escreverão os inenarráveis (mas sempre circunspectos e isentos, afirma-se) FT e Economist. Hollande já estará a ser pressionado no sentido de refrear o ímpeto soberanista, dado que a eurocracia não gosta de incerteza ou flexibilidade quando se vê afectada por elas; terá de ser responsável, porque o Eliseu deve ser ocupado por um cidadão responsável, capaz de cumprir o papel de correia transmissora do ordoliberalismo.

O impasse na formação de um governo grego, com as consequências dramáticas que advirão daí, será imputado à SYRIZA e a Tsipras, apesar de defender um projecto europeísta e ser, actualmente, a única força política grega com imaginação para apresentar alternativas. Mas será essa a táctica: Tsipras é um jovem inexperiente e a SYRIZA, com o costumeiro utopismo paroquial da "extrema-esquerda", servirá apenas como força de bloqueio das gentes responsáveis, das redes clientelares que conhecem bem a Goldman Sachs, a Siemens e os paraísos fiscais para onde o capital da indústria naval tem ido apanhar sol (ou bruma, no caso do Luxemburgo e de Zurique). Quando Venizelos defende um "governo de salvação nacional", aludindo à responsabilidade dos partidos com expressão parlamentar, procura recentrar a questão do euro e encostar a SYRIZA à parede. Falhará, mas o risco continuará ali, latente.

Os yields das obrigações francesas subirão exponencialmente e Hollande - com a equipa que escolher (e essa é uma questão em aberto que não é dispensável ou de somenos importância) - será obrigado a enfrentar Merkel, Schäuble, Draghi, Barroso e Rehn, se, depois de todas as rondas negociais e telefonemas (pode ser que Mélenchon e a Frente de Esquerda venham a ter influência, algo que me suscita muitas dúvidas), continuar a considerar a austeridade light um caminho melhor que a austeridade brutal. E, acreditamos, a inclusão de cláusulas tendentes ao investimento fará o projecto repressivo do neoliberalismo tardio cair por terra. Porque é mais frágil do que nos querem fazer crer; é por isso que precisa de reprimir e dividir, de inventar e reforçar um Estado liberal-paternalista onde as paranóias securitárias criam novos mercados no sector farmacêutico e carceral.

Entretanto, a ascensão do Chrysi Aygi e da Front Nationale devia ser um motivo de reflexão. Mas guardemos isso para outros carnavais. 

Encarreguemo-nos de não tornar este Domingo um carnaval irreflectido e o começo de uma vitória pírrica. Aconselha-se prudência e um fôlego internacionalista.



domingo, 6 de maio de 2012

Consumidores nos querem, Cidadãos nos terão

Domingo, segundo dia do boicote às lojas Pingo Doce e o número de apoiantes desta causa não cessa de aumentar. 845 adesões até ao momento, mas há cerca de 10.100 convidados que ainda não se manifestaram. Precisamos, todavia, de muitos mais para fundamentar uma intervenção com maior visibilidade.

Relembro que este boicote não pretende censurar os trabalhadores do Pingo Doce nem aqueles que fizeram compras no 1º de Maio. Visa mostrar à Jerónimo Martins, e a todos os outros, que "não vale tudo", e que a participação cívica dos cidadãos não se esgota com o voto nas eleições.

Consumidores nos querem, Cidadãos nos terão.

E, enquanto tal, votamos todos os dias escolhendo os locais onde depositamos os nossos votos (euros).

Exigimos ser respeitados de Janeiro a Janeiro!

Por isso é fundamental prosseguir com o processo de adesões no sentido de reforçar a legitimidade da intervenção cívica deste grupo, e lançar novos boicotes. Pelo que todos podem, e devem, aderir mesmo após a data definida para este protesto.

Um grupo de cidadãos interessados

https://www.facebook.com/events/283672728387948/

segunda-feira, 23 de abril de 2012

A Es.Col.A e o preconceito

Imagine-se um bairro, situado numa zona degradada do centro de uma grande cidade. Nesse bairro existe uma escola, propriedade da autarquia, que foi encerrada há cinco anos. Onde antes se ouviam as crianças, na hora do recreio, passou a reinar o silêncio. E o edifício degrada-se: desocupado e moribundo, não tem perspectivas de voltar a ganhar vida.
Imagine-se também que um grupo de cidadãos, interessados pela cidade em que vivem, pretende fazer trabalho comunitário, junto de pessoas que podem beneficiar do seu apoio. Alguns são empregados dos serviços, outros são professores e outros são gestores. O grupo é ainda composto por reformados, que decidiram preencher o tempo de que agora dispõem ao serviço da comunidade. Tencionam ajudar as crianças nos trabalhos escolares e promover diversas actividades com os moradores do bairro.

Perante o estado de abandono da escola, lembram-se de utilizar o pátio. É aí que se começam a encontrar com os mais novos e a reunir-se com os moradores, definindo em conjunto o que se pode começar a fazer. Há quem queira aprender a jogar xadrez. Há quem queira aulas de dança e sessões de ioga. Há até quem gostasse de saber utilizar um computador.
A pouco e pouco, as salas da escola abandonada vão acolhendo as diferentes actividades. Para as despertar da letargia em que se encontravam fazem-se pequenas obras. Substituem-se vidros partidos e colocam-se telhas novas nos sítios onde chove. Pintam-se paredes e arranjam-se algumas portas. A dado momento, pode já começar-se a pensar em criar uma pequena biblioteca, projectar filmes e abrir um espaço com computadores. As reuniões com os moradores começam a ter lugar entre muros, no edifício revitalizado.

A autarquia constata, entretanto, que a escola desocupada deixara de o estar. Apercebe-se das actividades que aí têm lugar e descobre uma coisa rara: essas actividades não são o menu definido por «técnicos sociais» encartados, tantas vezes especialistas em saber de antemão o que as pessoas precisam, mas sim o fruto de decisões colectivas e participadas. O ponto de encontro entre as competências dos voluntários e os interesses da comunidade.
Surgem, naturalmente, problemas jurídicos: é necessário que a «ocupação da desocupação» esteja dentro da lei. O grupo de voluntários – e a própria população do bairro – compreendem isso. É preciso que se constitua uma associação e, por força das leis vigentes, que a cedência do espaço pela autarquia implique o pagamento de uma verba simbólica. Tal como importa, também, que se celebre um contrato entre as partes, de modo a formalizar – afinal – tudo o que até aí foi sendo concebido e materializado de modo espontâneo, democrático e informal.

A autarquia, longe de equacionar o cenário de despejo (e muito menos o de um despejo coercivo), quer facilitar todo o processo. Porque – coincidência das coincidências – estava justamente em estudo, nos gabinetes da câmara, a possibilidade de reconverter o edifício da antiga escola num centro comunitário. Até já havia uma dotação prevista no orçamento, com uma parte destinada a obras de recuperação e outra parte destinada a remunerar a associação que ali se quisesse instalar, com o compromisso de desenvolver o projecto concebido para o bairro, no período de tempo previsto. Bastava acertar agulhas e ultrapassar as questões legais.

(Esta não é a história da Es.Col.A do Bairro da Fontinha. E não o é, essencialmente, por duas razões: porque na história da Es.Col.A do Bairro da Fontinha – que ainda não terminou – alguns dos seus protagonistas diferem do perfil aqui descrito. E porque, por isso, o preconceito e o atavismo – que nada devem à inteligência – contaminam o modo como o executivo de Rui Rio continua a encarar a Es.Col.A. O discurso que tece loas à iniciativa da «sociedade civil» e ao «empreendedorismo social» é uma retórica selectiva: não se aplica a todos).

Adenda: Não deixem de ler o relato, pessoal e felizmente transmissível, da Gui Castro Felga sobre a «operação» de despejo da Es.Col.A da Fontinha.

(Publicado originalmente no Ladrões de Bicicletas)

sábado, 21 de abril de 2012

Moção de solidariedade com a Escola do Alto da Fontinha


Texto aprovado ontem, na Cantina da Cidade Universitária de Lisboa. 

«Cerca de 200 pessoas, reunidas no jantar comemorativo do 38º aniversário do 25 de Abril, não podem deixar de exprimir o seu veemente protesto em relação aos acontecimentos ontem verificados, no Porto, com o desmantelamento do Projecto Es.Col.A do Alto da Fontinha. 

Onde e quando se esperava que os responsáveis da autarquia apoiassem e incentivassem uma iniciativa cidadã a todos os títulos notável, assistiu-se a uma acção brutal e destruidora. 

Não foi para isto que foi feito o 25 de Abril, não é esta a democracia por que lutámos e que queremos continuar a defender.»

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Solidariedade com a Es.Col.A: Próximas manifestações em Lisboa

As próximas concentrações em Lisboa, em solidariedade com a Es.Col.A da Fontinha e de repúdio pelo despejo:















Hoje, sexta-feira: 18h no Lag. de Camões
Amanhã, sábado: 19h no Lg. de Camões

Não se pode despejar uma ideia!

O centauro e os okupas


Hoje, a força bruta irrompeu violentamente por um projecto social digno de apreço. A violência física usada contra a Es.Col.A não tem desculpa. Tal como não devia ter a violência hegemónica que lhe veio associada.
Quíron, o centauro inteligente, é a figura que Maquiavel utiliza para mostrar a natureza dupla do poder político: força “animal” e astúcia “humana”, o mesmo que Gramsci traduz como coerção e consentimento.
Hoje o centauro percorreu o Porto e o país. E sentiu-se a violência da expressão manhosa das palavras.
Claro que nem todos os meios de comunicação social reagiram da mesma forma e houve coberturas informativas interessantes do que se passou.
Mas de manhã, escrevia o JN, na linguagem atabalhoada de uma notícia em actualização que já não se encontra disponível, qualquer coisa como: a polícia entrou na Es.Col.A para acabar com confrontos entre a polícia e os ocupantes. A estranheza do raciocínio, que acabou por ser corrigido, indicava desde logo um culpado sem apelo nem agravo e a acusação de que os exaltados comeram e não calaram.
E a expressão “confrontos”, que outras notícias de outros meios informativos foram repetindo ao longo do dia, faz o mesmo trabalho branqueando a violência da acção policial (desde a desocupação pela força à destruição cínica de todo de apoio às actividades desportivas e culturais) requerida por Rui Rio.
E mais até do que o processo interessa-me a caracterização dos protagonistas. As televisões, a SIC no noticiário da hora de almoço e a RTP no da hora de jantar colocavam ostensivamente nas suas telas a expressão “okupas”.
Eu até gosto da expressão “okupas” e penso que seria um bom dia para passar o documentário do João Romão. Só que a expressão, neste contexto, parece procurar ter como efeito a estigmatização e a marginalização do projecto da Fontinha. Parece desta forma legitimar a violência por outra forma já que ela não foi feita contra nós, pessoas normais, cidadãos honrados, mas contra os outros, umas pessoas esquisitas que sabe-se lá que interesses escondem e o que querem verdadeiramente fazer com aquilo…
Quem não viu já nas manifestações, as câmaras procurarem desesperadamente alguém que um visual digamos, para simplificar, “alternativo”?
O cinismo da manobra é deixar a conclusão por tirar quando ela já lá está mais que pronta a servir para o senso comum mais reacionário. Os espaços em branco que deixam parte da história por contar podem ser preenchidos pela imaginação. O fluxo informativo imparável, o limiar de atenção e o esquecimento farão o resto anulando informações que possam contradizer a imagem negativa.
Assim é a força do preconceito. Assim é a violência da informação que o alimenta.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Invasão Policial e Despejo da Es.Col.A

Texto para copiar, adaptar, assinar, viralizar e enviar às autoridades responsáveis pelo despejo de hoje:


A Es.Col.A é um espaço colectivo auto-gerido, situado no bairro da Fontinha, no Porto. Há pouco mais de um ano, um grupo de activistas ocupou o edifício de uma antiga escola, há muito abandonado e degradado. Recuperaram o espaço, limparam-no, fizeram os arranjos necessários e abriram-no à população carenciada daquele bairro. Desde então há uma programação diária, com actividades culturais e desportivas para todos os membros da comunidade.

A Câmara Municipal do Porto (CMP) atribuiu o espaço à Es.Col.A, com a condição de esta se constituir como associação, o que aconteceu rapidamente.

Esta manhã, a mesma Câmara Municipal deu ordens à polícia para invadir e expulsar violentamente os activistas ali presentes. A polícia não se coibiu de agredir e prender pessoas que se encontravam no local (com autorização da CMP, recorde-se). As imagens mostram grande violência.

Vimos por este meio exigir às autoridades competentes — Câmara Municipal do Porto e Ministério da Administração Interna — a investigação do sucedido no dia 19 de Abril de 2012 na Es.Col.A da Fontinha. Não é admissível a violência policial sobre cidadãos pacíficos, nem o desalojamento arbitrário de uma associação de um espaço cedido pela própria CMP. Depois de desalojar, a polícia destruiu o património que se encontrava no interior do edifício, que pertence à associação e entaipou a escola.

Para esta operação, a PSP convocou bombeiros profissionais alegadamente para um simulacro, utilizando estes profissionais de forma ilegal e típica apenas de regimes ditatoriais. A operação foi já condenada pelo Sindicato Nacional de bombeiros Profissionais.


A Es.Col.A tornou-se vital para os moradores do bairro da Fontinha! Exigimos a reabertura imediata das instalações, a libertação dos activistas presos e a continuação da actividade e programação da Es.Col.A!

Não se pode despejar uma ideia!



Destinatários possíveis:
Câmara Municipal do Porto 
Presidente: presidente@cm-porto.pt
Geral: geral@cm-porto.pt
Gabinete de imprensa: imprensa@cm-porto.pt
Gabinete do munícipe: gabinete.municipe@cm-porto.pt

Ministro da Administração Interna: miguel.macedo@mai.gov.pt